OLÁ FILÓSOFOS E FILÓSOFAS

Quando iniciamos um curso de Filosofia ou aulas de cunho filosófico, ouvimos a primeira pergunta "filosófica": "Para que serve a Filosofia?"
É a essa e várias outras perguntas que nesse nosso Blog perseguiremos. Não vamos dar respostas prontas, mas nos ajudaremos a encontrarmos nossas respostas!

Boa leitura, boa pesquisa!

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Amor e discernimento

Por Jucelino Moreira de Carvalho
Bacharel em Teologia pela FAERPI.

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Experiência e razão no horizonte pneumatológico das Igrejas


Fazendo um estudo dentro do Curso de Teologia, sobre a perspectiva da Pneumatologia no horizonte da Igreja, ao estudar alguns livros, como a Encíclica Dominum et vivificantem do Papa João Paulo II, Renovar-se no Espírito de P. R. Regamey, além do Falar de Deus e com Deus do Frei Carlos Josaphat, tendo encontrado um livro muito interessante sobre Pneumatologia, a partir de uma Teologia Latino-Americana, resolvir debruçar-me sobre ele, para desenvolver o presente trabalho, e é essa obra que apresento: Amor e discernimento; experiência e razão no horizonte pneumatológico das Igrejas, onde teólogos da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, partindo de uma problemática atual, buscam responder uma pergunta que carece de um estudo cada vez mais aprofundado. Será que o Espírito Santo está mesmo, animando essa efervescência carismático-pentecostal? Quais os critérios que temos para perceber a ação do Espírito nesses movimentos?
À partir dessa indagações os autores desse livro, vão desenvolvendo temas importantíssimos para o desenvolvimento da Pneumatologia, observando os movimentos que vão surgindo sob a perspectiva do Espírito. Para isso, é ressaltado que o Espírito é sempre o Espírito de Jesus Cristo, sendo que no seguimento do caminho vivido por Ele, na etapa terrestre da sua existência, encontramos e podemos sustentar o critério decisivo da autenticidade da ação do Espírito na vida do Cristão e da comunidade. Assim, dentro dessa obra, trabalharemos a primeira e segunda parte que faz uma reflexão teológica sobre a questão do pneuma, já que as duas outras partes da obra, trata mais dos aspectos históricos do surgimento dos movimentos pentecostais tanto nas confissões Cristãs, como na Igreja Católica Romana, com a Renovação Carismática Católica.

Introdução

No desenvolvimento da Teologia Cristã, ao longo dos séculos, em diversas ocasiões, foi concedido pouco espaço ao Espírito Santo, mais fortemente marcado nas experiências dos místicos, porém, toda fé plena, desenvolvida posteriormente ao Mistério Pascal, só existe depois da Partida de Jesus e do Pentecostes, como veremos nas promessas de Jesus no Evangelho de João. Esse Espírito Santo, age no humano, que é ambíguo, porém não há ambiguidade no Espírito, porque ele é Deus mesmo.
Vivemos em uma época de ambiguidades, de incoerências, pois se de um lado temos o crescimento do secularismo, do ateísmo, da indiferença religiosa, por outro lado vemos surgir e desenvolver-se tanto no âmbito da Igreja Católica como em outras confissões cristãs  os movimentos pentecostais, que buscam ressaltar em suas pregações e formações a experiência do Pentecostes, aquela experiencia que iniciou formalmente o Cristianismo, a Igreja. Por isso, que é a partir da ação do Espírito Santo na vida das pessoas, das comunidades e movimentos, e principalmente na vida da Igreja, que desenvolveremos esse texto.

Reflexão a partir da Bíblia

Ao tratarmos do Espírito Santo, precisamos percorrer um pouco o caminho da Sagrada Escritura, como os “discípulos de Emaús” para que possamos a partir daí termos uma verdadeira compreensão do tema. Na Sagrada Escritura, a palavra Espírito (Pneuma), aparece desde os primeiros capítulos do Gênesis até o fim do livro do Apocalipse. Para compreendermos bem essa teologia pneumatológica, podemos olhar de quatro níveis apresentados a seguir.
No primeiro nível, é a experiência da comunidade a partir do “novo”, que revolucionou a vida das pessoas, que surge a questão do Espírito nas primeiras comunidades Cristãs. Essa experiência do Espírito, foi para as primeiras comunidades como uma nova criação (Gl 6,15), um novo nascimento (Jo 3,3-7), sendo que esse tema é bem enfocado no Evangelho de Lucas e no Atos dos Apóstolos. Nesses textos, observa-se que toda a ação da comunidade é através da ação do Espírito Santo, que descendo do alto (Lc 24,49), provoca uma mudança radical. Esse Espírito animava a vida da comunidade inteira, no anúncio da Boa Nova, dando-os coragem para comunicar (At 4,31), fazendo-os testemunhas de Jesus. É recebendo o Espírito Santo através do batismo (At 2,38), pela imposição das mãos (At 8,18) e pela oração (At 8,15), que a pessoa passa a participar da comunidade, no Povo de Deus. Toda essa experiência provém do seu derramamento no dia de Pentecostes (At 1,5; 11,16), vista como um batismo no Espírito.
Assim, toda a vida do Cristão se realiza “em Jesus Cristo” e “no Espírito”, o Espírito de Jesus (Gl 4,6), dado pela ressurreição de Jesus, o qual faz do Cristão templo de Cristo (Ef 2,21) e ao mesmo tempo, templo do Espírito Santo (Ef 2,22), onde pelo Espírito Santo o amor de Deus é derramado no coração, e esse amor leva o cristão a agir através das virtudes, pois tudo de bom que o cristão faz provém do Espírito Santo, que “leva o homem a conhecer o seu mal, e ao mesmo tempo, orienta-o para o bem”. (citar a encíclica nº 42) Esse é o primeiro critério de discernimento da ação do Espírito Santo na vida da comunidade, a sua presença atuante escondida no ordinário da vida de cada dia e era lá que devia ser descoberto com o olhar da fé.
A novidade da experiência da vida no Espírito surpreendeu os próprios cristãos, e assim havia nas comunidades cristãs uma “diversidades de espíritos”, que muitas vezes levava os primeiros cristãos a extremismos. Por isso, que logo a comunidade toma consciência que não era pelo fato de alguém dizer que era inspirado por Deus que a sua palavra já era considerada fruto da ação do Espírito, para não cair-se nos enganos dos falsos profetas (2Ts 2,2). Assim, tratava-se de descobrir realmente ação do Espírito Santo, como manifestação e apelo de Deus, transfigurando assim as comunidades na imagem de Jesus e assim através delas realizar o projeto de Deus.
As afirmações que encontramos no Novo Testamento sobre a ação do Espírito Santo, tem como fonte primária o Antigo Testamento, onde se nos apresenta a ação criadora da Ruah. Há uma diferença entre a palavra espírito em nossa língua que é no gênero masculino, e a palavra Ruah no hebraico que é feminina e que no Antigo Testamento não fazia pensar num ser espiritual, nem em intelecto, nem em alma. A Ruah bíblica, significando vento, ar, brisa, indica algo que é encontrado nestes fenômenos: o está em movimento. Ruah é uma energia em movimento. Mas não é um movimento sem rumo, é sim um movimento direcionado. Além disso, o espírito, a Ruah, é também energia, dynamis, que se manifesta na respiração, sendo sopro de vida, animo, resistência (Gn 6,17). Indica o mais íntimo e mais profundo do ser humano, o seu espírito.
No Antigo Testamento, aparece em um primeiro momento, a Ruah ou Espírito de Deus na obra da criação, em movimento pairando por cima das águas do caos (Gn 1,2). Aqui a Ruah ganha a sua significação, como aquele que coloca tudo em movimento, toda a natureza, que governa todas as coisas (Sl 14,30; Sb 8,1). Assim, essa Ruah, enviada por Yhaweh está presente na história, na libertação do povo (Ex 14,21; Nm 11,31), nas lideranças dos Juízes lavando-os a ações libertadoras. Esse Ruah de Deus agiu também nos profetas (1Sm 10,5-6.10). Por isso vemos no Dêutero-Isaías toda uma releitura da história como conduzida pelo Espírito de Deus (Is 63,10-15), fazendo assim uma teologia da história. Nas profecias messiânicas de Isaías, aparece a Ruah de Deus que orientaria o messias (Is 42,1-9), além de várias ações da Ruah sobre o Povo de Deus, um povo que nasce cada vez de novo pela efusão do Espírito no coração do próprio Povo (Ez 36,26-27; Sl 51,12; Is 32,15-50; Ez 36,27).
Esse é o pano de fundo para compreendermos o Novo Testamento e as suas afirmações sobre a vida no Espírito nas primeiras comunidades. Os primeiros cristãos designam a novidade de sua experiência com a palavra Ruah (pneuma), tendo convicção de que sua ação não pode ser controlada, pois o Espírito não é nosso, nós é que somos dele. Assim, as primeiras comunidades fazendo uma leitura do Antigo testamento a partir da sua experiência de fé, afirma a realização daquilo que o AT anunciava (At 2,16-21), sendo eles o Povo de Deus que nasce do Espírito, sendo o Pentecostes o marco desse novo tempo, pois o prometido do Pai chegou (Lc 24,29). Assim, há nas primeiras comunidades cristãs uma releitura do passado à luz da nova vida no presente.

O Paráclito (Go'êl)

Vemos no Novo Testamento, que tanto a Jesus, como ao Espírito Santo é atribuído o título de Go'êl, que significa, aquele que resgata, defensor, paráclito (1Jo 2,1; Jo 14,16). Essa palavra era utilizada no AT para designar o defensor, advogado ou vingador que restabelecia a alguém um direito prejudicado (Nm 35,19; Dt 19,12). Porém com o tempo, a compreensão desse termo foi evoluindo, até chegarmos ao profetismo, onde o próprio Deus é visto como o Go'êl, o redentor, aquele que resgata seu povo (Is 41,41). Assim, na esperança messiânica, onde Deus vai resgatar o seu povo no futuro, o messias vai ser o Go'êl para o povo de Deus (Rt 4,14).
No Novo Testamento, é principalmente João que retoma este termo para esclarecer a ação do Espírito Santo, o advogado junto do Pai (1Jo 2,1), e aplica esse mesmo termo no Evangelho, como aquele que possa permanecer conosco para sempre (Jo 14,14-18.26), o paráclito (Jo 15,26).  Assim, vemos que na apocalíptica coloca-se uma pespectiva de dois mundos, o eterno, onde está o trono do juiz e onde está o defensor, o Go'êl, e o nosso, onde as coisas não tem consistência em si mesmas mas são reflexos do que há de vir, como afirma São Paulo. É na vitória sobre a morte e o pecado que Jesus que Jesus envia o Espírito Santo para ser o novo Go'êl (Jo 14,16) para ser o defensor permanente dos cristãos, e assim completar a obra começada. Assim, o Espírito de Jesus nos ajuda a fazer o caminho pelo mesmo processo pelo qual Jesus passou, a morte e ressurreição.
Assim, olhando o Antigo e o Novo testamento, podemos notar uma certa relação entre as imagens presentes em um e no outro. Assim como no princípio, na criação, o Espírito pairava sobre as águas (Gn 1,2), no batismo o com a vinda do Espírito acontece a nova criação (Lc 3,20), iniciada pela ação do Espírito, e através de Jesus o Espírito vai dar continuidade à Aliança de Deus. Além disso, os sinais ocorridos no Pentecostes (At 2,2) evocam os sinais ocorridos na conclusão da Aliança no Sinai (Ex 19,16-18). A reunião dos povos ao redor dos apóstolos no dia de Pentecostes, superando a barreira da incompreensão das línguas (At 2,5-12), mostra que com o Espírito Santo ocorre a reversão daquilo que ocorreu em Babel (Gn 11,1-9), a dispersão. Essas imagens ajudaram os primeiros cristãos a discernirem os rumos do Espírito na vida da comunidade.

Ação de Jesus e manifestação do Espírito

Segundo São  Paulo, se alguém está em Cristo, é uma nova criatura, por receber o Espírito de Cristo. Existe assim uma identidade entre a vida no Espírito e a vida em Cristo, por isso, a ação da comunidade de acordo com a prática de Jesus, era critério de discernimento para perceber a ação do Espírito Santo (1Jo 4,1-3).  O Espírito não fala a partir de si mesmo, mas somente aquilo que recebeu de Jesus (Jo 16,12-14). O mesmo Espírito que as comunidades experimentavam, já atuava em Jesus desde a sua concepção, e assim, a comunidade é chamada a olhar para aquilo que caracteriza o sentimento de Jesus, o seu esvaziamento, a kênosis. Por isso que, é da prática de Jesus que os cristãos ficam  sabendo qual o rumo que o Espírito que tomar na vida das comunidades, e faziam isso partindo do pressuposto que essa ação do Espírito já ocorria desde o Antigo Testamento, onde no deserto por exemplo, o povo já bebia a mesma bebida do Espírito, pois a rocha de onde saía a água era Cristo (1Cor 10,3-4).
Além disso, outro critério de discernimento da Ação do Espírito na vida das primeiras comunidades era o amor, que nos vem da prática de Jesus, sendo o amor o dom maior do Espírito, o agaph (1Cor 12,31; 13,13). O amor resume e concretiza tanto os ensinamentos de Jesus (Jo 15,12-14), como da lei e dos profetas (Mt 22,10). O amor verdadeiro da rumo à liberdade dos filhos de Deus. Assim o amor torna-se discernimento, pois, por incompreensíveis que sejam as profundezas de Deus, o Espírito faz que sejam prescrutadas (1Cor 2,10), alimentando e exercitando o gosto de Deus que São Pedro nos mostra como condição necessária para o progresso na fé (1Pd 2,3). Por issso vemos de São Paulo colocar o amor como a virtude mais importante, o dom supremo (1Cor 13,13), por que o amor assume e eleva toda a capacidade de amar, fazendo do ser humano uma imagem viva de Deus que é Amor universal, infiniti, gratuito. É na superabundância do amor de Deus que se sustenta a abundância do amor no coração do homem.
Assim, observamos que os critérios de discernimento para a ação do Espírito Santo na vida das primeiras comunidades Cristãs estavam baseados na configuração da prática da comunidade com a prática de Jesus Cristo. Esse também deve ser o critério de discernimento para a vida das nossas comunidades hoje. Vivemos na Igreja dois polos que são importantes, mas precisam ser equilibrados entre si, os carismáticos que tem muita oração, mas muitas vezes falta a práxis, a ação profética, e os movimentos de libertação que tem muita consciência crítica e ação profética, mas falta muitas vezes a perseverança da fé, ficando muitas vezes esse embate entre o Cristo da fé e i Jesus da história. Porém é através do discernimento da ação do Espírito Santo na Igreja que poderemos ver nos dois âmbitos a ação do mesmo Espírito que agia em Cristo Jesus.


A comunidade Joanina e o Espírito Santo

Sabendo que os discípulos de Jesus só chegaram a uma fé plena depois da ressurreição e da vinda do Espírito Santo, prosseguindo a missão de Jesus, observamos no evangelho de João uma diferença significativa quanto ao tratamento dado ao Espírito Santo, primeiro que nesse não aparece mais como uma força ou energia, mas aparece como pessoa, dando-lhe o nome de Paráclito-advogado, o mestre e a memória viva da comunidade. O Espírito Santo ocupa lugar central nesse Evangelho, sendo assim considerado um evangelho espiritual, onde aparece a união do Espírito com o Cristo, sendo esse o tema mais forte da pneumatologia joanina.
A comunidade que podemos perceber no Evangelho de João, é uma comunidade que não tendo conhecido o Jesus terreno, chegou a fé através das testemunhas que o anunciaram (Jo 1,35-51), como observamos João Batista que anuncia a seu discípulo, André ao seu irmão Simão e Felipe anuncia a Natanael. É nessa corrente de testemunhas que encontramo-nos até hoje.
O texto do Quarto Evangelho, escrito por volta de 80-90 d.C., mostra uma comunidade que tem sua fé amadurecendo através das crises e desafios, em um contexto de perseguição, onde os fiés que ficam desorientados, com medo e em crise de fé, são encorajados a permanecerem no caminho certo, pois para o evangelista só se chega a fé plena, com a morte e exaltação de Jesus, e a doação do Espírito, então a comunidade não é orfã. Assim como Jesus foi enviado do Pai, o Espírito também é enviado e possibilita à comunidade o conhecimento da vida de Jesus. Assim, mesmo sem a sua presença visível e corporal, a comunidade deve permanecer fiel a relação amorosa e profunda com Ele, através da ação do Espírito.
Por isso o autor desenvolve toda uma pneumatologia que sustenta a fé da comunidade nos discursos de despedia presente no Evangelho. Porém essa pneumatologia como estudamos, tem o seu lugar hermenêutico significativo logo no início do Evangelho, no discurso de Jesus com a Samaritana (Jo 4,5-14), onde aparece a vinda do Espírito em relação com a kenosis de Cristo. Nesse texto, vai aparecer fortemente a auto-identificação de Jesus com o “EU SOU” (4,26), significando assim a sua identidade messiânica, além da imagem do Espírito Santo como a “fonte que jorra em vida eterna”, que Jesus dá (4,14). Assim, em uma estrutura concêntrica no versículo 10, aparece a referência pneumatológica e Cristológica, sendo o Espírito Santo “dom de Deus”.
Nos discursos de despedida do Evangelho de São João, o Espírito Santo aparece com o seu papel decisivo, como Espírito da Verdade ou Paráclito. São três os grandes discursos, sendo que no primeiro o Espírito aparece como aquele que é dado aos discípulos  (13,31-14,31), no segundo aparece como testemunha perante as perseguições (15,1-16,4a), e no terceiro discurso, aparece como o Espírito da Verdade, que questiona o mundo sobre a justiça e o pecado, levando a comunidade à Verdade plena (16,4b-16,33). Assim, a comunidade vai aparecer como gerada pelo Espírito.
Assim como o Espírito agia em em Jesus desde o seu batismo,  sendo aquele a quem o Espírito desce e permanece, Jesus é aquele que batiza com o Espírito Santo. Essa importância é dada em João pelo verbo permanecer que aparece duas vezes, enquanto no Antigo Testamento o Espírito de Deus só permanecia nos profetas enquanto durava sua missão, em Jesus Ele permanece tanto no seu ministério, como no ministério da comunidade. Essa é a função do Espírito, introduzir os crentes cada vez mais profunda na verdade plena, pois permanecendo nela, Ele é testemunha, garantia e memória da vida do Mestre (14,26; 15,26s).
Com isso, a comunidade é defendida e consolada pelo Espírito Santo, o dom do Pai aos crentes para o tempo da ausência de Jesus, que estabelece assim a presença do “NOVO”, dando continuidade a obra que havia sido iniciada (Jo 17,12.13). Porém, o Espírito não é um mestre que traz uma doutrina nova, diferente, mas faz compreender as palavras de Jesus, “ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos disse” (cf. 14,26). Assim o evangelho de João faz uma releitura da vida terrena de Jesus à luz do Espírito, mostrando também o reflexo da comunidade onde foi escrito. Por isso vemos nos discursos de  despedida, que Jesus fala como aquele que acusa e vence o mundo, sendo essa também a função do Paráclito defendendo a comunidade, e mostra que o próprio mundo se julgou, por que não acreditou n'Ele. Assim a comidade vai recuperando confiança e alegria dando prosseguimento à sua missão.
Além disso, a comunidade é chamada a viver a companhia, e experimentar o Espírito Santo, assim como Jesus está no Pai, os discípulos estão em Jesus e o Espírito está nos discípulos (14,10), e assim a comunidade vai descobrindo a companhia do Espírito e construindo a comunhão. Através d'Ele os crentes são introduzidos na plenitude da verdade (16,13), fazendo conhecer em profundidade o único Deus verdadeiro e buscar realizar sua vontade e seu projeto de amor para a humanidade, por isso, assim como o Espírito permaneceu em Jesus, esse mesmo Espírito permanecerá nos fiéis (14,17a). Permanecendo no Espírito, a os discípulos permanecem em Jesus, esse é o tema forte que vemos no capítulo 15, onde aparece doze vezes esse verbo, para exprimir a união do tronco e dos ramos, isto é, de Jesus com os seus fiéis através do vínculo de amor no Espírito, “assim como o Pai me amou e eu vos amei, permanecei no meu amor” (15,9). Essa permanência significa continuar na profissão de fé em Jesus e continuar na comunidade do amor fraterno, sendo essa uma nova relação, uma nova perspectiva inspirada pelo Espírito Santo.
Assim, sob a inspiração do Paráclito, a comunidade joanina é chamada a viver o amor, pois é uma comunidade gerada no Espírito (3,8), para viver o amor e a solidariedade. Permanecer no amor não é um estado, é uma decisão, uma resposta ao dom do Pai, oferecido em Jesus e possibilitado pelo Espírito. A presença constante do Espírito na comunidade transborda a superabundância do amor e faz presente a mesma reação do Profeta Jeremias: “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir”. O fiel percebe, no seu próprio amor e no amor da comunidade, o amor de Jesus Cristo, sendo assim uma comunhão de amor que faz experimentar cada vez mais a presença de Cristo.
Através do amor suscitado pelo Espírito de Jesus no seio da comunidade, os discípulos são convidados a viver a missão e dar fruto no mundo, pois o amor não consegue ficar escondido.  Se a comunidade está repleta do Espírito Santo, ela deve estar em missão, transbordando o vivido e experimentado (1Jo 1,1-4), sendo esse o lugar sociológico do Espírito, o estar no mundo e permanecer nos fiéis. O amor entre nós está intimamente ligado com a nossa confissão de fé, já que somente por meio dela se chega à raiz última do amor, e esse amor é expressado na prática da justiça, pois a experiência verdadeira de Deus gera em nós o amor fraterno, atualizando na prática a vida de Jesus de Nazaré.

Com tudo isso, vimos em João que através do Espírito Santo o Paráclito, a comunidade continuou a manter a relação estabelecida com Jesus e a viver o amor comunitário e solidário, demonstrando, assim, sua afetividade por aquele que partiu. A sua missão é revelar o mandamento novo e antigo, o amor (1Jo 2,5-10), que torna Deus visível e o manifesta ao mudo. Assim, experimentar o Espírito, nos escritos Joaninos, é amar os irmãos e praticar a justiça. O Espírito é o Mestre interior. Ele é o laço de Amor que nos introduz na comunhão com o Pai e o Filho, e sendo imanente atua constante e permanentemente, tanto na comunidade como nas pessoas que permanecem fiéis aos ensinamentos de Jesus, demonstrando assim que a fé em Jesus é viver o amor aos irmãos, pois o acima de tudo crer é amar! (1Jo 3,23) Esse é o maior critério de discernimento para percebermos a ação do Espírito Santo em nós.

Análise do Conhecimento em Kant


Por: *Jucelino Moreira de Carvalho


Fazendo um estudo da teoria do conhecimento, passando um pouco no criticismo kantiano, ele começa a “Crítica da razão Pura” a bem dizer afirmando que na mente humana só há uma intuição sensitiva. A intuição é conhecer as coisas como se apresentam a nós, ela está na própria sensibilidade humana, na sua percepção do mundo. Não é uma intuição do intelecto, pois o intelecto só pensa sobre algo depois que recebe informações da sua sensibilidade, formando assim, conceitos e juízos sobre o objeto. Para ele, é de competência do intelecto refletir sobre algo e julgar, ou seja, considerando o porquê e a causa do objeto. A construção do juízo pelo intelecto só se da depois de uma interação entre sujeito e objeto.
Além disso, o conhecimento se inicia com a percepção ou intuição sensitiva. As coisas se apresentam ao homem através de cores, luzes, sensações, daí o homem absorve essa percepção e no seu intelecto forma conceitos e juízos, levando-o ao conhecimento da percepção. E nessa percepção de conceitos e juízos, que a percepção se torna consciência, ou seja, se torna algo a ser pensado. Mas para conhecer, é preciso já haver no sujeito consciência do que se percebe. O primeiro conhecimento humano é a sua consciência de que pode conhecer. Só a partir dessa conexão e da sua relação com o objeto em si é que a percepção se torna consciência do seu conhecimento, unindo a intuição com o entendimento.
Na sua filosofia, Kant se depara com duas linhas de pensamento, ou sistemas filosóficos. Primeiro o racionalismo, o qual diz que o conhecimento se dá anterior a experiência, ou seja, a priori no seu primeiro sentido. O outro, o empirismo, afirma que o conhecimento só se dá através da experiência, ou seja, a posteriori. Então, Kant tenta fazer uma mediação entre esses dois sistemas, mudando o conceito de “a priori” dado pelos racionalistas, e acrescenta a experiência e o pensamento como envergaduras do conhecimento.
Para Kant, o “a priori” é o conhecimento independente da experiência, mas não anterior a ela. Ele divide o “a priori” e puro e não puro. O a priori puro é o conhecimento totalmente independente da experiência, desprovido de qualquer elemento empírico. Quando em uma afirmação há um termo que só pode ser tirado da experiência, esse enunciado não pode ser mais a priori puro. Assim, o conhecer a priori é somente mostrar como e quais elementos intuitivos podem servir à formação de juízos, para assim se determinar a causalidade das coisas.
O espírito humano é capaz de receber representações do mundo sensível, através da percepção ou intuição sensível. Mas quando se forma e se produz em si próprio essa representação é o entendimento, mostrando como se pode pensar o objeto da intuição e como somos afetados por esses objetos.  Sensibilizar os conceitos é torná-los palpáveis, perceptíveis, dando-lhes um objeto da intuição. Além disso, fazer as intuições inteligíveis é aplicar-lhes conceitos, eleva-las ao conhecimento intelectivo, formulando juízos e tornando-os mais conhecíveis. Mas é necessário sempre uma junção das duas capacidades humanas para se chegar ao conhecimento.
Ainda em Kant, a unidade da consciência é a representação única que deve estar presente em toda consciência antes de qualquer intuição. Ele deve ser idêntico, sem poder ser acompanhada de nenhuma outra. Essa unidade é o próprio pensamento do intelecto, na relação entre o espírito pensante e o objeto pensado, sendo distinguido da sua multiplicidade. É o intelecto que através do pensamento unifica as representações dadas, sendo assim, o principio do conhecimento humano.




* Licenciado em Filosofia pela FAERPI; Bacharel em Teologia pela FAERPI; Graduando em História pela UNEB.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

ESCOLA SEM/COM PARTIDO! QUE PARTIDO?

Um tema muito polêmico na atualidade é a questão do projeto de lei "Escola sem partido". Esse projeto visa criar um marco legal que obrigue todas as escolas a colocaram um cartaz em sala de aula onde traz contido seis deveres do professor, como se esse não soubesse quais são seus deveres. Esse tema é controverso justamente por que lida com algo que parte da subjetividade humana, a questão das escolhas, dos direcionamentos, além de ficar no embate simplesmente o binômio "esquerda" e "direita". Vejamos o que diz o dito cartaz:

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Esse projeto traz alguns pontos interessantes para ser debatidos. A primeira pergunta que faço é: Escola sem partido, mas que partido? Críticos do projeto apontam que essa é uma manobra da "direita" para que tirar do professor o direito de formar uma consciência crítica nos seus alunos. Realmente bloquear o professor, silenciando-o quanto a questões cruciais da vida em sociedade é no mínimo perigoso, colocando-o simplesmente como reprodutor daquilo que lhe é passado ou aprendido de conteúdo na graduação, e os alunos também tornam-se meros reprodutores de conceitos, textos, fórmulas matemáticas, fatos históricos, entre outros.
Porém, sinceramente não é preciso nem comentar essas propostas acima. Isso não muda em muita coisa tanto para um "lado" como para outro. Precisamos sensibilizar nos estudantes uma consciência crítica, mas isso requer a transmissão de um conteúdo vasto, observando as várias vertentes de pensamento, a diversidade religiosa e cultural, além é claro da diversidade de sistemas políticos com suas positividades e negatividades, pois não existiu ainda sistema político perfeito. Além disso, o aluno tem que ter acesso a aquilo que está no arcabouço cultural e científico atual sem direcioná-lo de antemão para uma das partes. Já que falamos de liberdade de escolha, liberdade de expressão, estamos dizendo que é direito do estudante, direito da pessoa escolher sua linha de pensamento. Saindo disso, entramos em determinismos, em privação da vontade. 
A filosofia nos permite justamente observamos as nuances de cada linha de pensamentos sem precisamente nos sentirmos na obrigação de tomar um "partido". Por isso termino essa provocação voltando a pergunta inicial que nos questiona: Escola sem "partido" ou com "partido", mas que "partido"? Penso que esse seja o maior dilema tanto dos defensores do projeto como dos contraventores. Espero que encontrem a resposta, pois se cada um já escolheu seu "partido", será cada vez mais difícil.