Por Jucelino Moreira de Carvalho
Bacharel em Teologia pela FAERPI.

Experiência e razão no horizonte pneumatológico das
Igrejas
Fazendo um estudo dentro do Curso de Teologia,
sobre a perspectiva da Pneumatologia no horizonte da Igreja, ao estudar alguns
livros, como a Encíclica Dominum et vivificantem do Papa João Paulo II, Renovar-se
no Espírito de P. R. Regamey, além do Falar de Deus e com Deus do
Frei Carlos Josaphat, tendo encontrado um livro muito interessante sobre
Pneumatologia, a partir de uma Teologia Latino-Americana, resolvir debruçar-me
sobre ele, para desenvolver o presente trabalho, e é essa obra que apresento: Amor
e discernimento; experiência e razão no horizonte pneumatológico das
Igrejas, onde teólogos da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro,
partindo de uma problemática atual, buscam responder uma pergunta que carece de
um estudo cada vez mais aprofundado. Será que o Espírito Santo está mesmo,
animando essa efervescência carismático-pentecostal? Quais os critérios que
temos para perceber a ação do Espírito nesses movimentos?
À partir dessa indagações os autores desse
livro, vão desenvolvendo temas importantíssimos para o desenvolvimento da
Pneumatologia, observando os movimentos que vão surgindo sob a perspectiva do
Espírito. Para isso, é ressaltado que o Espírito é sempre o Espírito de Jesus
Cristo, sendo que no seguimento do caminho vivido por Ele, na etapa terrestre
da sua existência, encontramos e podemos sustentar o critério decisivo da
autenticidade da ação do Espírito na vida do Cristão e da comunidade. Assim,
dentro dessa obra, trabalharemos a primeira e segunda parte que faz uma
reflexão teológica sobre a questão do pneuma, já que as duas outras
partes da obra, trata mais dos aspectos históricos do surgimento dos movimentos
pentecostais tanto nas confissões Cristãs, como na Igreja Católica Romana, com
a Renovação Carismática Católica.
Introdução
No desenvolvimento da Teologia Cristã, ao longo
dos séculos, em diversas ocasiões, foi concedido pouco espaço ao Espírito
Santo, mais fortemente marcado nas experiências dos místicos, porém, toda fé
plena, desenvolvida posteriormente ao Mistério Pascal, só existe depois da
Partida de Jesus e do Pentecostes, como veremos nas promessas de Jesus no
Evangelho de João. Esse Espírito Santo, age no humano, que é ambíguo, porém não
há ambiguidade no Espírito, porque ele é Deus mesmo.
Vivemos em uma época de ambiguidades, de
incoerências, pois se de um lado temos o crescimento do secularismo, do
ateísmo, da indiferença religiosa, por outro lado vemos surgir e desenvolver-se
tanto no âmbito da Igreja Católica como em outras confissões cristãs os movimentos pentecostais, que buscam
ressaltar em suas pregações e formações a experiência do Pentecostes, aquela
experiencia que iniciou formalmente o Cristianismo, a Igreja. Por isso, que é a
partir da ação do Espírito Santo na vida das pessoas, das comunidades e
movimentos, e principalmente na vida da Igreja, que desenvolveremos esse texto.
Reflexão a partir da Bíblia
Ao tratarmos do Espírito Santo, precisamos
percorrer um pouco o caminho da Sagrada Escritura, como os “discípulos de
Emaús” para que possamos a partir daí termos uma verdadeira compreensão do
tema. Na Sagrada Escritura, a palavra Espírito (Pneuma), aparece desde
os primeiros capítulos do Gênesis até o fim do livro do Apocalipse. Para
compreendermos bem essa teologia pneumatológica, podemos olhar de quatro níveis
apresentados a seguir.
No primeiro nível, é a experiência da
comunidade a partir do “novo”, que revolucionou a vida das pessoas, que surge a
questão do Espírito nas primeiras comunidades Cristãs. Essa experiência do
Espírito, foi para as primeiras comunidades como uma nova criação (Gl 6,15), um
novo nascimento (Jo 3,3-7), sendo que esse tema é bem enfocado no Evangelho de
Lucas e no Atos dos Apóstolos. Nesses textos, observa-se que toda a ação da
comunidade é através da ação do Espírito Santo, que descendo do alto (Lc
24,49), provoca uma mudança radical. Esse Espírito animava a vida da comunidade
inteira, no anúncio da Boa Nova, dando-os coragem para comunicar (At 4,31), fazendo-os
testemunhas de Jesus. É recebendo o Espírito Santo através do batismo (At
2,38), pela imposição das mãos (At 8,18) e pela oração (At 8,15), que a pessoa
passa a participar da comunidade, no Povo de Deus. Toda essa experiência provém
do seu derramamento no dia de Pentecostes (At 1,5; 11,16), vista como um
batismo no Espírito.
Assim, toda a vida do Cristão se realiza “em
Jesus Cristo” e “no Espírito”, o Espírito de Jesus (Gl 4,6), dado pela
ressurreição de Jesus, o qual faz do Cristão templo de Cristo (Ef 2,21) e ao
mesmo tempo, templo do Espírito Santo (Ef 2,22), onde pelo Espírito Santo o
amor de Deus é derramado no coração, e esse amor leva o cristão a agir através
das virtudes, pois tudo de bom que o cristão faz provém do Espírito Santo, que
“leva o homem a conhecer o seu mal, e ao mesmo tempo, orienta-o para o bem”.
(citar a encíclica nº 42) Esse é o primeiro critério de discernimento da ação
do Espírito Santo na vida da comunidade, a sua presença atuante escondida no
ordinário da vida de cada dia e era lá que devia ser descoberto com o olhar da
fé.
A novidade da experiência da vida no Espírito
surpreendeu os próprios cristãos, e assim havia nas comunidades cristãs uma
“diversidades de espíritos”, que muitas vezes levava os primeiros cristãos a extremismos.
Por isso, que logo a comunidade toma consciência que não era pelo fato de
alguém dizer que era inspirado por Deus que a sua palavra já era considerada
fruto da ação do Espírito, para não cair-se nos enganos dos falsos profetas
(2Ts 2,2). Assim, tratava-se de descobrir realmente ação do Espírito Santo,
como manifestação e apelo de Deus, transfigurando assim as comunidades na
imagem de Jesus e assim através delas realizar o projeto de Deus.
As afirmações que encontramos no Novo
Testamento sobre a ação do Espírito Santo, tem como fonte primária o Antigo
Testamento, onde se nos apresenta a ação criadora da Ruah. Há uma
diferença entre a palavra espírito em nossa língua que é no gênero
masculino, e a palavra Ruah no hebraico que é feminina e que no Antigo
Testamento não fazia pensar num ser espiritual, nem em intelecto, nem em alma.
A Ruah bíblica, significando vento, ar, brisa, indica algo que é
encontrado nestes fenômenos: o está em movimento. Ruah é uma energia em
movimento. Mas não é um movimento sem rumo, é sim um movimento direcionado.
Além disso, o espírito, a Ruah, é também energia, dynamis, que se
manifesta na respiração, sendo sopro de vida, animo, resistência (Gn 6,17).
Indica o mais íntimo e mais profundo do ser humano, o seu espírito.
No Antigo Testamento, aparece em um primeiro
momento, a Ruah ou Espírito de Deus na obra da criação, em movimento
pairando por cima das águas do caos (Gn 1,2). Aqui a Ruah ganha a
sua significação, como aquele que coloca tudo em movimento, toda a natureza,
que governa todas as coisas (Sl 14,30; Sb 8,1). Assim, essa Ruah,
enviada por Yhaweh está presente na história, na libertação do povo (Ex 14,21;
Nm 11,31), nas lideranças dos Juízes lavando-os a ações libertadoras. Esse Ruah
de Deus agiu também nos profetas (1Sm 10,5-6.10). Por isso vemos no
Dêutero-Isaías toda uma releitura da história como conduzida pelo Espírito de
Deus (Is 63,10-15), fazendo assim uma teologia da história. Nas profecias
messiânicas de Isaías, aparece a Ruah de Deus que orientaria o messias
(Is 42,1-9), além de várias ações da Ruah sobre o Povo de Deus, um povo
que nasce cada vez de novo pela efusão do Espírito no coração do próprio Povo
(Ez 36,26-27; Sl 51,12; Is 32,15-50; Ez 36,27).
Esse é o pano de fundo para compreendermos o
Novo Testamento e as suas afirmações sobre a vida no Espírito nas primeiras
comunidades. Os primeiros cristãos designam a novidade de sua experiência com a
palavra Ruah (pneuma), tendo convicção de que sua ação não pode ser
controlada, pois o Espírito não é nosso, nós é que somos dele. Assim, as
primeiras comunidades fazendo uma leitura do Antigo testamento a partir da sua
experiência de fé, afirma a realização daquilo que o AT anunciava (At 2,16-21),
sendo eles o Povo de Deus que nasce do Espírito, sendo o Pentecostes o marco
desse novo tempo, pois o prometido do Pai chegou (Lc 24,29). Assim, há nas
primeiras comunidades cristãs uma releitura do passado à luz da nova vida no
presente.
O Paráclito (Go'êl)
Vemos no Novo Testamento, que tanto a Jesus,
como ao Espírito Santo é atribuído o título de Go'êl, que significa,
aquele que resgata, defensor, paráclito (1Jo 2,1; Jo 14,16). Essa palavra era
utilizada no AT para designar o defensor, advogado ou vingador que restabelecia
a alguém um direito prejudicado (Nm 35,19; Dt 19,12). Porém com o tempo, a
compreensão desse termo foi evoluindo, até chegarmos ao profetismo, onde o
próprio Deus é visto como o Go'êl, o redentor, aquele que resgata seu
povo (Is 41,41). Assim, na esperança messiânica, onde Deus vai resgatar o seu
povo no futuro, o messias vai ser o Go'êl para o povo de Deus (Rt 4,14).
No Novo Testamento, é principalmente João que
retoma este termo para esclarecer a ação do Espírito Santo, o advogado junto do
Pai (1Jo 2,1), e aplica esse mesmo termo no Evangelho, como aquele que possa
permanecer conosco para sempre (Jo 14,14-18.26), o paráclito (Jo 15,26). Assim, vemos que na apocalíptica coloca-se
uma pespectiva de dois mundos, o eterno, onde está o trono do juiz e onde está
o defensor, o Go'êl, e o nosso, onde as coisas não tem consistência em
si mesmas mas são reflexos do que há de vir, como afirma São Paulo. É na
vitória sobre a morte e o pecado que Jesus que Jesus envia o Espírito Santo
para ser o novo Go'êl (Jo 14,16) para ser o defensor permanente dos
cristãos, e assim completar a obra começada. Assim, o Espírito de Jesus nos
ajuda a fazer o caminho pelo mesmo processo pelo qual Jesus passou, a morte e
ressurreição.
Assim, olhando o Antigo e o Novo testamento,
podemos notar uma certa relação entre as imagens presentes em um e no outro.
Assim como no princípio, na criação, o Espírito pairava sobre as águas (Gn
1,2), no batismo o com a vinda do Espírito acontece a nova criação (Lc 3,20),
iniciada pela ação do Espírito, e através de Jesus o Espírito vai dar
continuidade à Aliança de Deus. Além disso, os sinais ocorridos no Pentecostes
(At 2,2) evocam os sinais ocorridos na conclusão da Aliança no Sinai (Ex
19,16-18). A reunião dos povos ao redor dos apóstolos no dia de Pentecostes,
superando a barreira da incompreensão das línguas (At 2,5-12), mostra que com o
Espírito Santo ocorre a reversão daquilo que ocorreu em Babel (Gn 11,1-9), a
dispersão. Essas imagens ajudaram os primeiros cristãos a discernirem os rumos
do Espírito na vida da comunidade.
Ação de Jesus e manifestação do
Espírito
Segundo São
Paulo, se alguém está em Cristo, é uma nova criatura, por receber o
Espírito de Cristo. Existe assim uma identidade entre a vida no Espírito e a
vida em Cristo, por isso, a ação da comunidade de acordo com a prática de Jesus,
era critério de discernimento para perceber a ação do Espírito Santo (1Jo
4,1-3). O Espírito não fala a partir de
si mesmo, mas somente aquilo que recebeu de Jesus (Jo 16,12-14). O mesmo
Espírito que as comunidades experimentavam, já atuava em Jesus desde a sua
concepção, e assim, a comunidade é chamada a olhar para aquilo que caracteriza
o sentimento de Jesus, o seu esvaziamento, a kênosis. Por isso que, é da
prática de Jesus que os cristãos ficam
sabendo qual o rumo que o Espírito que tomar na vida das comunidades, e
faziam isso partindo do pressuposto que essa ação do Espírito já ocorria desde
o Antigo Testamento, onde no deserto por exemplo, o povo já bebia a mesma
bebida do Espírito, pois a rocha de onde saía a água era Cristo (1Cor 10,3-4).
Além disso, outro critério de discernimento da
Ação do Espírito na vida das primeiras comunidades era o amor, que nos vem da
prática de Jesus, sendo o amor o dom maior do Espírito, o agaph (1Cor
12,31; 13,13). O amor resume e concretiza tanto os ensinamentos de Jesus (Jo
15,12-14), como da lei e dos profetas (Mt 22,10). O amor verdadeiro da rumo à
liberdade dos filhos de Deus. Assim o amor torna-se discernimento, pois, por
incompreensíveis que sejam as profundezas de Deus, o Espírito faz que sejam
prescrutadas (1Cor 2,10), alimentando e exercitando o gosto de Deus que São
Pedro nos mostra como condição necessária para o progresso na fé (1Pd 2,3). Por
issso vemos de São Paulo colocar o amor como a virtude mais importante, o dom
supremo (1Cor 13,13), por que o amor assume e eleva toda a capacidade de amar,
fazendo do ser humano uma imagem viva de Deus que é Amor universal, infiniti,
gratuito. É na superabundância do amor de Deus que se sustenta a abundância do
amor no coração do homem.
Assim, observamos que os critérios de
discernimento para a ação do Espírito Santo na vida das primeiras comunidades
Cristãs estavam baseados na configuração da prática da comunidade com a prática
de Jesus Cristo. Esse também deve ser o critério de discernimento para a vida
das nossas comunidades hoje. Vivemos na Igreja dois polos que são importantes,
mas precisam ser equilibrados entre si, os carismáticos que tem muita oração,
mas muitas vezes falta a práxis, a ação profética, e os movimentos de
libertação que tem muita consciência crítica e ação profética, mas falta muitas
vezes a perseverança da fé, ficando muitas vezes esse embate entre o Cristo da
fé e i Jesus da história. Porém é através do discernimento da ação do Espírito
Santo na Igreja que poderemos ver nos dois âmbitos a ação do mesmo Espírito que
agia em Cristo Jesus.
A comunidade Joanina e o
Espírito Santo
Sabendo que os discípulos de Jesus só chegaram
a uma fé plena depois da ressurreição e da vinda do Espírito Santo,
prosseguindo a missão de Jesus, observamos no evangelho de João uma diferença
significativa quanto ao tratamento dado ao Espírito Santo, primeiro que nesse
não aparece mais como uma força ou energia, mas aparece como pessoa, dando-lhe
o nome de Paráclito-advogado, o mestre e a memória viva da comunidade. O Espírito
Santo ocupa lugar central nesse Evangelho, sendo assim considerado um evangelho
espiritual, onde aparece a união do Espírito com o Cristo, sendo esse o tema
mais forte da pneumatologia joanina.
A comunidade que podemos perceber no Evangelho
de João, é uma comunidade que não tendo conhecido o Jesus terreno, chegou a fé
através das testemunhas que o anunciaram (Jo 1,35-51), como observamos João
Batista que anuncia a seu discípulo, André ao seu irmão Simão e Felipe anuncia
a Natanael. É nessa corrente de testemunhas que encontramo-nos até hoje.
O texto do Quarto Evangelho, escrito por volta
de 80-90 d.C., mostra uma comunidade que tem sua fé amadurecendo através das
crises e desafios, em um contexto de perseguição, onde os fiés que ficam
desorientados, com medo e em crise de fé, são encorajados a permanecerem no
caminho certo, pois para o evangelista só se chega a fé plena, com a morte e
exaltação de Jesus, e a doação do Espírito, então a comunidade não é orfã.
Assim como Jesus foi enviado do Pai, o Espírito também é enviado e possibilita
à comunidade o conhecimento da vida de Jesus. Assim, mesmo sem a sua presença
visível e corporal, a comunidade deve permanecer fiel a relação amorosa e
profunda com Ele, através da ação do Espírito.
Por isso o autor desenvolve toda uma
pneumatologia que sustenta a fé da comunidade nos discursos de despedia
presente no Evangelho. Porém essa pneumatologia como estudamos, tem o seu lugar
hermenêutico significativo logo no início do Evangelho, no discurso de Jesus
com a Samaritana (Jo 4,5-14), onde aparece a vinda do Espírito em relação com a
kenosis de Cristo. Nesse texto, vai aparecer fortemente a
auto-identificação de Jesus com o “EU SOU” (4,26), significando assim a sua
identidade messiânica, além da imagem do Espírito Santo como a “fonte que jorra
em vida eterna”, que Jesus dá (4,14). Assim, em uma estrutura concêntrica no
versículo 10, aparece a referência pneumatológica e Cristológica, sendo o
Espírito Santo “dom de Deus”.
Nos discursos de despedida do Evangelho de São
João, o Espírito Santo aparece com o seu papel decisivo, como Espírito da
Verdade ou Paráclito. São três os grandes discursos, sendo que no primeiro o
Espírito aparece como aquele que é dado aos discípulos (13,31-14,31), no segundo aparece como
testemunha perante as perseguições (15,1-16,4a), e no terceiro discurso,
aparece como o Espírito da Verdade, que questiona o mundo sobre a justiça e o
pecado, levando a comunidade à Verdade plena (16,4b-16,33). Assim, a comunidade
vai aparecer como gerada pelo Espírito.
Assim como o Espírito agia em em Jesus desde o
seu batismo, sendo aquele a quem o
Espírito desce e permanece, Jesus é aquele que batiza com o Espírito Santo.
Essa importância é dada em João pelo verbo permanecer que aparece duas vezes,
enquanto no Antigo Testamento o Espírito de Deus só permanecia nos profetas
enquanto durava sua missão, em Jesus Ele permanece tanto no seu ministério,
como no ministério da comunidade. Essa é a função do Espírito, introduzir os
crentes cada vez mais profunda na verdade plena, pois permanecendo nela, Ele é
testemunha, garantia e memória da vida do Mestre (14,26; 15,26s).
Com isso, a comunidade é defendida e consolada
pelo Espírito Santo, o dom do Pai aos crentes para o tempo da ausência de
Jesus, que estabelece assim a presença do “NOVO”, dando continuidade a obra que
havia sido iniciada (Jo 17,12.13). Porém, o Espírito não é um mestre que traz
uma doutrina nova, diferente, mas faz compreender as palavras de Jesus, “ele
vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos disse” (cf. 14,26). Assim o
evangelho de João faz uma releitura da vida terrena de Jesus à luz do Espírito,
mostrando também o reflexo da comunidade onde foi escrito. Por isso vemos nos
discursos de despedida, que Jesus fala
como aquele que acusa e vence o mundo, sendo essa também a função do Paráclito
defendendo a comunidade, e mostra que o próprio mundo se julgou, por que não
acreditou n'Ele. Assim a comidade vai recuperando confiança e alegria dando
prosseguimento à sua missão.
Além disso, a comunidade é chamada a viver a
companhia, e experimentar o Espírito Santo, assim como Jesus está no Pai, os
discípulos estão em Jesus e o Espírito está nos discípulos (14,10), e assim a
comunidade vai descobrindo a companhia do Espírito e construindo a comunhão.
Através d'Ele os crentes são introduzidos na plenitude da verdade (16,13),
fazendo conhecer em profundidade o único Deus verdadeiro e buscar realizar sua
vontade e seu projeto de amor para a humanidade, por isso, assim como o
Espírito permaneceu em Jesus, esse mesmo Espírito permanecerá nos fiéis
(14,17a). Permanecendo no Espírito, a os discípulos permanecem em Jesus, esse é
o tema forte que vemos no capítulo 15, onde aparece doze vezes esse verbo, para
exprimir a união do tronco e dos ramos, isto é, de Jesus com os seus fiéis
através do vínculo de amor no Espírito, “assim como o Pai me amou e eu vos
amei, permanecei no meu amor” (15,9). Essa permanência significa continuar na
profissão de fé em Jesus e continuar na comunidade do amor fraterno, sendo essa
uma nova relação, uma nova perspectiva inspirada pelo Espírito Santo.
Assim, sob a inspiração do Paráclito, a
comunidade joanina é chamada a viver o amor, pois é uma comunidade gerada no
Espírito (3,8), para viver o amor e a solidariedade. Permanecer no amor não é
um estado, é uma decisão, uma resposta ao dom do Pai, oferecido em Jesus e
possibilitado pelo Espírito. A presença constante do Espírito na comunidade
transborda a superabundância do amor e faz presente a mesma reação do Profeta
Jeremias: “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir”. O fiel percebe, no
seu próprio amor e no amor da comunidade, o amor de Jesus Cristo, sendo assim
uma comunhão de amor que faz experimentar cada vez mais a presença de Cristo.
Através do amor suscitado pelo Espírito de Jesus
no seio da comunidade, os discípulos são convidados a viver a missão e dar fruto
no mundo, pois o amor não consegue ficar escondido. Se a comunidade está repleta do Espírito
Santo, ela deve estar em missão, transbordando o vivido e experimentado (1Jo
1,1-4), sendo esse o lugar sociológico do Espírito, o estar no mundo e
permanecer nos fiéis. O amor entre nós está intimamente ligado com a nossa
confissão de fé, já que somente por meio dela se chega à raiz última do amor,
e esse amor é expressado na prática da justiça, pois a experiência verdadeira
de Deus gera em nós o amor fraterno, atualizando na prática a vida de Jesus de
Nazaré.
Com tudo isso, vimos em João que através do
Espírito Santo o Paráclito, a comunidade continuou a manter a relação
estabelecida com Jesus e a viver o amor comunitário e solidário, demonstrando,
assim, sua afetividade por aquele que partiu. A sua missão é revelar o
mandamento novo e antigo, o amor (1Jo 2,5-10), que torna Deus visível e o
manifesta ao mudo. Assim, experimentar o Espírito, nos escritos Joaninos, é
amar os irmãos e praticar a justiça. O Espírito é o Mestre interior. Ele é o
laço de Amor que nos introduz na comunhão com o Pai e o Filho, e sendo imanente
atua constante e permanentemente, tanto na comunidade como nas pessoas que
permanecem fiéis aos ensinamentos de Jesus, demonstrando assim que a fé em
Jesus é viver o amor aos irmãos, pois o acima de tudo crer é amar! (1Jo 3,23)
Esse é o maior critério de discernimento para percebermos a ação do Espírito
Santo em nós.