OLÁ FILÓSOFOS E FILÓSOFAS

Quando iniciamos um curso de Filosofia ou aulas de cunho filosófico, ouvimos a primeira pergunta "filosófica": "Para que serve a Filosofia?"
É a essa e várias outras perguntas que nesse nosso Blog perseguiremos. Não vamos dar respostas prontas, mas nos ajudaremos a encontrarmos nossas respostas!

Boa leitura, boa pesquisa!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Palestra da Doutora Renate Jost

Ética: para que o homem continue humano

Renate Jost de Moraes


No ano passado, foi realizado na cidade de Bauru (SP), promovido pela USC, um importante Seminário sobre o tema "Ética em Pesquisa". Na oportunidade levantaram-se assuntos relacionados ao genoma humano, fertilização "in-vitro", Bioética e outras questões semelhantes. Participaram como conferencistas personalidades da comunidade científica, inclusive do Instituto Ludwig, entidade de pesquisa genética que destacou-se mundialmente pelo novo enfoque dado à leitura dos genes, agora centrada sobre a região central da molécula RNA mensageira. O acontecimento encheu de orgulho, não apenas os brasileiros, mas todos aqueles que se dedicam e confiam na ciência. Com esta medida, a Engenharia Genética prevê, para um futuro mais próximo a eliminação de males genéticos, responsáveis por muitas doenças até hoje consideradas incuráveis. Entretanto, uma questão grave se levanta quando, pela biotecnologia, se atua sobre células vivas, mais especificamente sobre os processos reprodutivos de seres humanos, ou quando outras intervenções sobre genes e embriões se tornam possíveis. Nestas horas, o empolgamento pelo progresso ou pela ciência em si, muitas vezes faz esquecer o objetivo básico dessas experiências, que deve ser orientado para o sentido existencial do ser humano integral e para sua dignidade intrínseca, não apenas para o genoma.

Assim, se focalizarmos, por exemplo a inseminação artificial ou a fertilização "in vitro", sabemos, sem dúvida que este recurso pode ser uma solução para casais onde se apresenta o problema da incapacidade de terem filhos. Mas ao lado desse benefício, muitos questionamentos imediatamente se levantam, a partir de um enfoque mais global e humanístico do ser humano, pois na maioria desses casos, separa-se destes recursos biológicos , o contexto conjugal, o de "pessoa" e do Amor de um casal. Em breve, talvez não se necessite, nem mesmo de um pai, pois a doação do sêmen pode ser buscada numa banca de congelados. Teremos então, a perversão das relações de parentesco, que pode fazer uma criança ser filha do avô, do irmão ou de um estranho qualquer; que se refletirá geralmente sobre o psiquismo na inteligência, na forma de "distorções" do raciocínio lógico, de dislexia, de esquizofrenia, de autismo, podendo gerar problemas físicos, como a distrofia muscular, conforme já tivermos experiências com situações similares, provocadas pela infidelidade conjugal ou a separação conjugal. E a criança, no futuro, terá a difícil ou a impossível tarefa de aprender a existir sem o referencial normal da origem familiar. O que isto significa explica-se hoje por meio dos resultados obtidos com a pesquisa do inconsciente. Todo o sentido existencial constrói-se na criança com vistas ao momento da concepção e da fase da gestação, onde ela busca, de imediato, o amor dos pais. E quando a criança não se percebe vinda deste contexto, pode ela agir negativamente sobre seus genes, e com muita presteza, mesmo impedindo que aconteça o sucesso de uma intervenção genética de cientistas.

Outra questão ética, entre tantas que a Engenharia Genética hoje levanta, é a que se refere à conduta para com os embriões. Não se prevê na declaração dos Direitos Humanos os direitos do embrião. Mas ele está aí como ser humano com auto-consciência, desde que se apresenta o seu patrimônio genético na concepção. E numa estatística divulgada pela Austrália, dizia-se que de 15 fertilizações "in vitro", 14 embriões eram descartados por serem considerados de "menor qualidade". Pergunta-se: pode-se "descartar" um ser humano? Menor qualidade biológica é sinônimo de menor qualidade humana?! A nível de inconsciente, desde a concepção, toda a pessoa sabe, ela própria, objetivar as qualidades únicas de seu ser e especificar a função (missão) particular que terá no mundo. Sem outras importantes considerações, pergunta-se: saberemos avaliar o que a humanidade deixará de receber com a falta destas "pessoas" que foram descartadas?! Ainda, quanto aos embriões congelados, sabemos pela pesquisa indireta do inconsciente que o embrião "sente frio" e não só da condição real, mas da ausência do amor, da indiferença pelo seu ser, pela angústia de não saber seu destino e por não poder existir no "agora". Outra questão é que no futuro, deve-se poder interferir pela fertilização artificial de meninos e meninas; como ficará o fantástico equilíbrio que a natureza até hoje conseguiu manter entre número equivalente de nascimentos de homens e mulheres?!

Enfim, as perguntas éticas em torno das novas descobertas da Genética são intermináveis e assustadoras. Isso, porque o genoma humano não é apenas a seqüência ou o mapa genético de determinada pessoa, mas também do ser humano universal. Tudo indica também que não se faz no gene somente o registro biológico. mas provavelmente o psicológico e humanístico. O genoma humano traz ainda a hereditariedade dos ancestrais da mesma forma como o potencial de retransmissão às próximas gerações. Diante disso, perguntamos: se cientistas indiferentes à Ética e à dignidade humana passarem a exercer o controle sobre a essência estrutural do ser humano, será que no futuro próximo ainda seremos "humanos" da forma como nos conhecemos hoje?! Não partirá o próprio homem a fabricar monstros que tornarão a convivência e o existir no mundo impossíveis e que acabarão por destruí-lo?!

Diante de todas essas reflexões desperta-se para a importância atual da Bioética como ciência de orientação às "possibilidades" da pesquisa genética. Alicerçada sobre os Direitos Humanos e os valores pré reflexivos do homem, é de seu conteúdo difundir normas em defesa dos princípios e da dignidade humana. Precisa a Bioética propor condutas que não sejam dogmáticas e que não inibam a pesquisa, mas que também não dêem margem ao relativismo, uma vez que este acabaria por anular o efeito de qualquer traçado ético. Deve a Bioética garantir de que a desenfreada vaidade da busca do progresso em si, não suplante o objetivo de servir ao homem na caminhada de seu processo de humanização. Mas a Bioética, disciplina fundamentada na Filosofia, encontra também dificuldades em impor-se ao paradigma científico. Para o mundo da ciência, a Ética é polêmica e os próprios cientistas que compõe os Institutos de Bioética discordam entre si pela divergência de princípios, tendo ainda dificuldades de entendimento mútuo pela variedade de linguagem de cada especialidade dos membros componentes.

Assim, ao proferirmos nossa conferência como membro do comitê de "Ética e Pesquisa", junto à USC, alertamos os participantes para o fato de que, há 16 anos, num Congresso de Bioética na Holanda, levantavam-se praticamente as mesmas dificuldades para a Bioética, que atualmente (ano 2000) se levantaram no Congresso de Bioética da Espanha. Mas como psicóloga criadora do método de Abordagem Direta do Inconsciente foi-nos possível dar também uma possibilidade de solução a essa questão.

De fato; ao penetrar-se, através do questionamento específico, o inconsciente profundo, ou a interioridade essencial, ou ainda, a área intuitiva do ser humano, vai-se muito alem do psico-físico. Observa-se que nessa interioridade encontram-se todos os tipos de resposta aos questionamentos do saber, identificando-se, até mesmo a dimensão humanistica. Existe ai uma espécie de indicação-padrão para valores humanistico- universais. Verificou-se também que todo o desvio desse eixo padrão, reflete-se necessariamente em perturbações psicológicas, e estas como última instância, em problemas de ordem orgânica ou física. A recíproca é também verdadeira: o tratamento feito a esse nível de interioridade age sobre o psiquismo e o físico, curando-os. Desta forma, comprova-se pelos "efeitos" que o nível humanístico realmente existe, está dentro de nós e é o responsável primeiro pelos problemas psico-físicos, inclusive os genéticos do homem. Assim confirma-se na prática clínica (30 mil casos tratados) o que disse o brilhante filósofo Bergson sobre a "intuição" ou nossa "interioridade". Diz Bergson: " no nível da intuição, ciência, filosofia e religião não se contradizem. A contradição está no método de investigação, não na realidade."

Nosso próprio inconsciente, portanto, é capaz de fornecer um referencial seguro à Bioética. E respostas assim fornecidas não estão apenas no inconsciente dos bioéticos, mas estão também no inconsciente dos cientistas, pois baseiam-se no referencial dos valores humanístico-universais. O difícil, portanto não é vencer os impasses de adaptação das reflexões ético - filosóficas ao paradigma científico. Difícil é o ser humano realmente querer enfrentar sua interioridade profunda e assumir mudanças de "ser" para reajustar-se as verdades universais, que desde todos os tempos estão presentes dentro e não fora dele e que são necessárias à sua cura "plena".

Enfim, a Genética apresenta-se hoje como a evidência das realizações científicas do momento. Mas imensamente maior será o valor de suas conquistas se , em relação aos resultados obtidos e a aplicabilidade prática da mesma, atentarmos para uma Bioética solidamente estruturada sobre a natureza intrínseca do ser humano, para que através da Genética não só tente apenas modificar certos genes considerados prejudiciais, mas para que cuidemos de sanar as raízes dos sofrimentos do homem como "ser", resgatando a integralidade sadia e equilibrada da humanidade.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A ÉTICA EM ARISTÓTELES



Aristóteles foi um dos grandes filósofos da antiguidade, que se preocupou com as questões relacionadas à práxis humana. Nasceu em Estagira por volta do ano 384/383 a. C. Aos dezoito anos viajou para Atenas e lá ingressou na academia platônica, onde desenvolveu e amadureceu o seu pensamento filosófico. Em 343/342 a. C. lhe fora confiada a educação do jovem Alexandre filho de Filipe da Macedônia. Por volta do ano 335/334 a. C., retorna a Atenas e começa a ensinar peripateando (passeando) pelo grande jardim ao lado do Templo sagrado de Apolo. Ao longo da vida produziu grandes escritos, divididos em dois grupos: os exotéricos e os escritos esotéricos. É considerado um dos precursores da ética filosófica e as suas obras mais famosas foram: a metafísica; os tratados de filosofia moral e política, alem da ética a Nicômaco, a Grande ética, a Poética e a Retórica.

A Ética a Nicômaco, uma das principais obras de Aristóteles, é considerada como sendo um dos primeiros tratados sobre a prática do agir humano como membro d'uma sociedade política. No inicio da obra, Aristóteles começa fazendo uma descrição do bem e os seus fins, pois, segundo ele, todas as ações humanas alargam-se a fins que são bens, bens que tendem a subordinar-se a um fim ultimo, isto é, o bem supremo, o qual os indivíduos chamam de felicidade. Felicidade que não deve está alicerçada no prazer, honra ou juntar riquezas, e sim um aperfeiçoar-se enquanto homem e nas atividades que o diferencia de todos os seres, isto é, “aos que desejam e agem de acordo com um principio racional”. Princípio daquele que quer viver bem. De um modo ou de outro, todos os indivíduos desejam ser feliz. Tanto o homem vulgo como os de cultura superior têm a felicidade como fim e identificam o bem viver e o bem agir com o ser feliz. Entretanto, a verdadeira e ou a falsa felicidade se dá no modo pelo qual cada indivíduo põe a sua felicidade, pois o homem vulgo identifica o bem ou a felicidade com o prazer (vida do gozo) e os de vida contemplativa que se datem nas atividades virtuosas.

Aristóteles faz uma descrição daquilo que dever ser buscado por si mesmo e aquilo que é utilizado apenas como meio em vista de um bem maior. Entre eles estar o absoluto, buscado por si mesmo e, por isso, é absoluto e incondicional e a felicidade, que tem as demais virtudes como um meio de alcançá-la. Pois, seria impossível realizar atos nobres sem os devidos meios, ou seja, sem amigos, riquezas, poder político, a nobreza de nascimento e a beleza, cuja ausência compromete a felicidade. Também nos diz que o homem bom age de acordo com a razão e em consonância com as virtudes e, quanto mais assim fizer, mais virtuoso se torna. Nesse sentido, é possível perceber que Aristóteles não nega tais elementos, mas alerta para o fato de que não devem ser postos como fim ultimo a ser alcançado. Portanto, o sábio é alguém que age e direciona o seu agir conforme o bem, pois o que constitui a felicidade ou o seu contrario são as atividades virtuosas ou viciosas.

Diz-nos que a felicidade pertence ao número das coisas estimadas e perfeita pelo fato de ser ela um primeiro principio, porque é tendo-a em vista que o homem faz tudo que faz, alem disso, o primeiro principio e causa dos bens é algo de estimado e divino. Assim, a virtude e a felicidade são atividades essencialmente da alma. E um dos meios para se desenvolver tais atividades é através da política. Por ser ela a melhor. Por isso mesmo o político deve saber o que diz respeito à alma.

Ao final do livro I e inicio do livro II, Aristóteles faz uma diferenciação entre virtudes intelectuais e morais. As intelectuais (a sabedoria filosófica, a compreensão e a sabedoria poética) adquiridas por via de regras, que se desenvolve graças ao ensino. As virtudes morais (liberalidade e a temperança) adquirida por via do habito. Ambas as virtudes são adquiridas pelo exercício. O mesmo acontece com o homem, o qual se torna justo praticando atos justos, ou seja, ser moderado em suas ações, pois o justo está no meio termo visto que está na natureza das coisas o serem destruídas pela falta e pelo excesso. “Se dez libras é demais para uma pessoa comer e duas libras é demasiadamente pouco”, a justa medida será seis libras. O mesmo se aplica às virtudes morais e as paixões. O homem que se entrega ao prazer e não se abstem torna-se inteperante e os que evitam os prazeres se tornam incessíveis. Portanto, a virtude consiste nem no excesso nem na falta, mas é uma disposição que incidir numa mediania.

Portanto, a partir da leitura dos livros I e II da Ética a Nicômaco,foi possível perceber o interesse de Aristóteles em descrever o modo como o homem deve ser e agir no seu dia-a-dia, mostrando que todos desejam a felicidade, tanto o homem vulgo quanto o de cultura superior têm a felicidade como fim. Porém, a diferença se dar no deposito que cada um faz de tal felicidade, pois uns colocam nos prazeres, outros no sumo bem. Nesse sentido, o sábio seria aquele que sabe direcionar em situação concreta a melhor forma de agir, pois o homem se torna justo praticando atos justos, tendo em vista a mediania, já que a virtude consiste na justa medida e, desse modo, ele é louvado ou censurado por suas virtudes ou vícios.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trd. Vincenzo Cocco. São Paulo. Abril Cultura, 1979.

A existência do Primeiro Motor em Aristóteles

Sabe-se que toda causa age para produzir um efeito. Para provar a existência de Deus, Aristóteles faz uma passagem pela causa eficiente, a causa que dar movimento as coisas. Esse movimento causado pela causa eficiente, está presente nos seres, quando há o movimento de potência para ato. Toda coisa que se move é movida por outra, e sendo dessa maneira, o movimento é constante. No entanto, é impossível ir até o infinito na serie das causas, como na própria causa eficiente, ou das causas finais, os fins últimos, e que, portanto, deve haver em cada série um primeiro princípio do qual depende toda essa série causal, o qual veremos adiante.

Esse problema está presente na metafísica aristotélica onde ele procura demonstrar a existência de um primeiro motor, pois sendo o movimento de uma coisa causado por outra, uma coisa pode estar em movimento em um momento (tempo), e em repouso em outro momento. Entrando nisso, a questão do tempo, que em Aristóteles é eterno, pois desde quando se pensa um antes e um depois, estamos situando um certo tempo. Se pensamos quando começou o tempo, ou o que existia antes do tempo, entramos em contradição pois já estamos colocando tempo, ou seja, em Aristóteles não existe um começo e um fim, tudo existe desde sempre, e sempre vai existir. Sendo o tempo o numero do movimento, conforme o antes e o depois, ou seja a medida do movimento, esse movimento também é eterno já que sempre que se pensa em tempo se pensa em uma sucessão de movimento.

Sendo o movimento eterno, eterno também é a coisa que comunica esse movimento, pois não podemos remontar ao infinito, e se assim não o podemos existe um motor que é imóvel, que move sem ser movido, pois do contrário não seria primeiro motor, causa do movimento, isso é Deus.

Assim, Deus é eterno, imóvel, ato puro, privado de potência e de matéria, pura vida espiritual. Dele depende a natureza, o céu e tudo o que existe. Esse Deus não é criador, não age sobre a matéria criando-a, não cuida do mundo nem o conhece, pois não pode ter nenhum contato com ele. Deus não se importa com o mundo, pode-se assim dizer, mas o mundo que sente o fascínio por Deus e se move em direção dele, como para sua meta final.

Além disso, sendo Deus totalmente espiritual, ele é pensamento de pensamento, já que ele não pensa o mundo, nem o homem. Deus pensa aquilo que é mais excelente, ou seja, ele próprio.

“O pensamento que é pensamento por si mesmo tem como objeto aquilo que é por si mesmo mais excelente em máximo grau. A inteligência pensa a si mesma, captando-se como inteligível: com efeito, ela torna-se inteligível intuindo e pensando a si mesmo de modo que inteligência e inteligível coincidem [...]. Assim, se a inteligência divina é aquilo que existe de mais excelente ela pensa a si mesma e o seu pensamento é pensamento de pensamento.” 1



Deus não está voltado para o mundo ou para as coisas materiais ou para o homem, como é visto no cristianismo, mas Deus se volta para si mesmo. Assim Aristóteles liberta Deus de todo o antropomorfismo existente em sua época, e o coloca totalmente transcendente, lhe conferindo assim uma expressão sublime.



FILOSOFIA MEDIEVAL:



· Filosofia iluminada pela fé, ou melhor, precedida pela fé.

· Colaboração harmoniosa entre fé e razão.

· Convergência entre razão humana e sabedoria divina.





SANTO AGOSTINHO – Século IV



“Quando se trata de Deus, o pensamento é mais verdadeiro do que a palavra e a realidade de Deus mais verdadeira do que o pensamento.”



Ø Para Santo Agostinho, quando o ser humano alcança a verdade ele também alcança a Deus.

Ø Em sua obra “Cidade de Deus” Agostinho afirma: “Deixando de lado inclusive o testemunho dos profetas, o próprio mundo, com sua ordenadíssima variedade e mutabilidade e com a beleza de todos os objetos sensíveis, proclama ter sido feito por Deus, inefável e invisivelmente grande e belo”.

Ø De acordo com Santo Agostinho, é tal o poder de Deus que ele não pode permanecer totalmente oculto a criatura racional, desde que ela tenha começado a fazer uso da razão. Portando, toda espécie humana reconhece que Deus é o criador do mundo.”

Ø A experiência mística revelaria ao homem a existência de Deus.

Ø Deus é o ser transcendente que fundamenta toda a verdade.

Ø Deus é realidade interna e ao mesmo tempo transcendente ao pensamento.

Ø Para santo Agostinho é mais fácil dizer quem Deus não é do que dizer o que ele é. Pois deus é inefável, ou seja, não se pode exprimi-lo por palavras.

Ø Para Santo Agostinho Deus é o criador de todas as formas e matéria.

Ø Deus é o ser por excelência, que é, foi e sempre será, esta completamente fora do tempo, é imutável e eterno.

Ø Sendo imutável Ele é a plenitude do ser, perfeição máxima, bem absoluto, o sumo bem.


Argumento Ontológico


O argumento ontológico é o único argumento pela existência de Deus a priori.esse argumento pretende estabelecer a existência de Deus a partir da mera análise do conceito de Deus, sem utilizar qualquer evidência com origem na experiência. A idéia é que própria noção de Deus implica que Deus existe. Santo Anselmo apresentou o argumento pela primeira vez no capítulo 2 do livro Proslogion. Aí, ele começou por definir Deus como “alguma coisa maior do que a qual nada se pode pensar” (aliquid quo nihil maius cogitari possit). É importante perceber bem o significado da palavra «maior» nesta definição. Anselmo não está a dizer que Deus é a coisa maior que existe. “Maior” não tem aqui o significado comum de “maior em tamanho”, mas de maior em valor ou maior em perfeição. Assim, ao dizer que Deus é “alguma coisa maior do que a qual nada se pode pensar”, santo Anselmo está a dizer que Deus é “alguma coisa com mais valor (ou mais perfeição) que se pode pensar”. Esta é uma definição muito geral de Deus, que especificamente nada diz sobre os seus atributos. Podemos, no entanto, assumir que é outra maneira de expressar a definição teísta de Deus, embora, para os fins de Santo Anselmo, isso seja irrelevante. Tudo aquilo de que ele precisa para o seu argumento é desta definição geral, que afirma que quaisquer que sejam os atributos de Deus, ele possui-os em grau absoluto. Desta forma, Santo Anselmo não se limita a dizer que Deus tem certos atributos no grau mais elevado que podemos conceber, mas que ele tem todas as qualidades ou perfeições que podemos conceber em grau absoluto. É este o verdadeiro significado da definição de Anselmo.

Estabelecida a definição de Deus, Santo Anselmo avança para a segunda fase do argumento. Algumas pessoas (como o insipiente do Salmo, 14, 1 da Bíblia), dizem que Deus não existe. As pessoas que fazem esta afirmação podem dessa forma estar a negar que Deus exista na realidade, mas não podem negar que ele exista na mente, uma vez que para negar a existência de qualquer coisa é necessário compreender aquilo de que se nega a existência, isto é, é preciso ter uma idéia disso na mente. Por exemplo, para negares que existam fantasmas tens de ter na tua mente uma idéia de fantasma. Sem uma idéia de fantasma ser-te-ia impossível negar a existência de fantasmas. Ora, isto também é verdade para as pessoas que negam que Deus exista. Para o poderem fazer têm de ter na sua mente uma ideia de Deus. Assim, mesmo o insipiente da Bíblia ou um ateu que digam “Não há Deus”, para que o possam dizer, têm de ter nas suas mentes uma idéia de Deus.

Santo Anselmo está agora em condições de passar para a última fase do seu argumento. Será que Deus tem apenas esta existência mental que tanto o crente como o ateu lhe reconhecem? Não, porque se Deus existisse apenas na mente, seria possível conceber um Deus maior, que existisse não apenas na mente, mas também na realidade, uma vez que o que quer que, para além de existir na mente, exista também na realidade é maior (no sentido explicado acima de ter mais valor ou maior perfeição) do que aquilo que exista apenas na mente. Mas isto é impossível, visto que, como Deus é, por definição, «aquilo maior do que o qual nada se pode pensar» nada pode ser maior que Deus. Portanto, Deus existe não apenas na mente, mas também na realidade.

Nesta última fase do argumento ontológico, Santo Anselmo usa uma forma de argumento que já conheces: a redução ao absurdo. A redução ao absurdo que Santo Anselmo faz é a seguinte:

Primeira premissa: Se “aquilo maior do que o qual nada se pode pensar” existisse apenas na mente, seguir-se-ia que “aquilo maior do que o qual nada se pode pensar” seria aquilo mesmo maior do que o qual alguma coisa se pode pensar.

Segunda premissa: Mas, isto, em virtude da própria definição de Deus, é impossível.

Conclusão: Portanto, é forçoso concluir que “aquilo maior do que o qual nada se pode pensar” existe não só na mente como também na realidade.

O argumento ontológico completo é, em esquema, o seguinte:

Primeira premissa (definição de Deus): Deus é “alguma coisa maior do que a qual nada se pode pensar”.

Segunda premissa: Mesmo aqueles que negam a existência de Deus têm Deus na sua mente.

Terceira premissa: Aquilo que existe na mente e na realidade é maior do que aquilo que existe apenas na mente.

Quarta premissa (primeira premissa da redução ao absurdo): Se “aquilo maior do que o qual nada se pode pensar” existir apenas na mente, segue-se que “aquilo maior do que o qual nada se pode pensar” é aquilo mesmo maior do que o qual alguma coisa se pode pensar.

Quinta premissa (segunda premissa da redução ao absurdo): É auto-contraditório que “aquilo maior do que o qual nada se pode pensar” seja aquilo maior do que o qual alguma coisa se pode pensar.

Conclusão (da redução ao absurdo): Portanto, “aquilo maior do que o qual nada se pode pensar” existe tanto na mente como na realidade.

Conclusão: Portanto, Deus existe necessariamente.



São Tomás de Aquino



· O ente e a essência:



Capitulo 5 : Deus como causa primeira de todos os demais seres .

“4.2”

Capitulo 6 : “ Existe algo , como Deus , cuja essência seu próprio ser ou sua existência .



· AS 5 VIAS QUE LEVAM A DEUS :



Ø Provas exclusivamente a posteriore.

Ø Através de cinco vias a existência de Deus é provada racionalmente.

Ø Cinco argumentos que provam a existência de Deus.

Ø Segundo São Tomás de Aquino a razão pode provar a existência de Deus através de cinco vias, todas de índole realista: considera-se algum aspecto da realidade dada pelos sentidos como efeito do qual se procura uma causa.

Ø A existência Deus somente é compreensível através de seus efeitos sensíveis , efeitos esses causados por sua existência.

Ø Parte do que já é contatado no mundo para chegar a Deus, parte de constatações empíricas, sensíveis.

Ø Todas as cinco vias parte de realidades concretas e verificáveis para chegar uma única mata , que é Deus .

Ø As cinco provas parte da realidade das coisas finitas pra chegar a Deus, realidade infinita.

Ø Segundo São Tomás, a partir das coisas criadas podemos comprovar a existência de Deus.

Ø Fundamentação aristotélica – o ponto de partida de cada via são elementos da cosmologia aristotélica.



I VIA: primeiro motor imóvel



Deus é o primeiro motor, movente imóvel, que move como causa final, objeto de desejo, que move tudo pra si.

1ª Prova – A do Motor Imóvel: diz que “se aquilo pelo qual é movido por sua vez se move, é preciso que também ele seja movido por outra coisa e esta por outra. Mas não é possível continuar ao infinito; do contrário, não haveria primeiro motor e nem mesmo os outros motores moveriam como, por exemplo, o bastão não move se não é movido pela mão. Portanto, é preciso chegar a um primeiro motor que não seja movido por nenhum outro, e por este todos entendem Deus”.



Ø Todo movimento possui uma causa que deve ser exterior ao próprio movimento.

Ø É impossível que uma coisa seja causa do movimento de si mesma.



II VIA : causa eficiente ou primeira

Deus como primeiro motor, como causa incausada. Deus é causa primeira de tudo por que é causa de si mesmo.

Nada é causa eficiente de si mesmo.



2ª Prova – A da Cauda Primeira: Neste argumento, Tomás nos mostra que tudo no mundo possui uma causa eficiente, uma razão de ser como de fato é. Nada é causa de si mesma, pois a causa sempre vem antes do efeito, sendo assim, algo que fosse sua própria causa deveria existir antes dela mesma, o que é um absurdo. Ele nos diz também que não podemos estender a cadeia de causas e efeitos até o infinito, tendo que chegar a uma causa primeira, que não teve causa e é a causa de todas as outras coisas. Essa causa é Deus.



III VIA: ser necessário



3ª Prova – Do Ser Necessário: Este argumento nos fala que os entes (coisas) são contingentes, ou seja, não são necessários. Contingente é aquilo que pode existir ou deixar de existir. Tudo que existe no mundo houve um tempo em que não existiu e haverá um tempo em que não existirá mais. Sendo assim, houve um tempo em que nada existiu. Mas se isso fosse verdade, ainda hoje nada existiria, pois “ex nihil nihilo fit” (do nada, nada provém). É preciso admitir que existe um ser que não é necessário e que através dele todos os outros seres vieram a existir. Este ser não pode não ter existido em determinado tempo e nunca deixará de existir. Este ser é Deus.



IV VIA:



4ª Prova – A dos Graus do Ser: Este argumento nos diz que em todas as coisas do mundo existe um grau de perfeição, de bondade, de ser... As coisas do mundo são mais perfeitas, boas, belas que outras. Sendo assim, deve haver algum ser que contém esses atributos ao infinito e seria a causa desta mesma perfeição, bondade, beleza... nos outros seres. Este ser é Deus.

Deus é a perfeição máxima.

Perfeição absoluta e fonte de toda perfeição.



V VIA:



5ª Prova – A da Inteligência Ordenadora: Alega que as coisas do mundo parecem ter sido projetadas. Existe uma ordem admirável no Universo que é facilmente verificada, ora toda ordem é fruto de uma inteligência ordenadora, não se chega à ordem pelo acaso e nem pelo caos, logo há um ser inteligente que dispôs o universo na forma ordenada. Com efeito aquilo que não tem conhecimento não tende a um fim, a não ser dirigido por algo que conhece e que é inteligente, como a flecha pelo arqueiro. Logo existe algo inteligente pelo qual todas as coisas naturais são ordenadas ao fim, e a isso nós chamamos Deus.


Prova cartesiana da Existência de Deus



Quando Descartes, através da duvida chega a uma verdade indubitável, que é o “eu penso” ele estabelece assim a existência de uma substancia incorpórea que pode existir mesmo eu duvidando da existência do sensível, ou seja, mesmo sem a existência do corpo, da matéria, existe essa substancia que pensa, que duvida, que sente, isso é a alma que Descartes apresenta nas meditações metafísicas.

Assim, partindo também da duvida e da própria certeza da sua existência, Descartes vai apresentar a prova da existência de Deus. Primeiro ele parte da existência da idéia de Deus em seu espírito, no entanto essa idéia existe assim como existe varias outras, apresentando assim as idéias adventícias, que provem do sensível, as fictícias que são inventadas pelo próprio homem, e as idéias inatas que são essas as quais já nascem com ele. Excluindo as outras por serem indubitáveis, como a existência do calor, luz, frio etc, Descartes mantém apenas as inatas, dentre as quais esta a idéia da perfeição, a própria idéia de Deus.

Para provar a existência de Deus na realidade, ele parte da existência da idéia em seu pensamento, sendo assim, parte do efeito para causa. Sendo ele, um ser empirista, contingente, mortal, tem em seu pensamento a idéia do perfeito, do infinito, através dessa idéia, ele chega a Deus, um ser perfeitíssimo, infinito e imaterial, pois, uma coisa é mais perfeito existindo no pensamento e na realidade, do que existindo só no pensamento. Logo, se Deus existe só na idéia, não seria um ser perfeito, e o eu pensante não pode ter essa idéia de si mesmo por ser imperfeito, sendo que duvido, e a duvida é uma imperfeição. Assim, Deus existe no pensamento e na realidade.

A existência de Deus em Descartes é a base para todas as certezas, para o próprio cogito, pois se Deus não existisse, tudo seria posto em duvida, até a própria existência como eu pensante.





Deus na Filosofia Contemporânea segundo o pensamento de Friedrich Nietzsche



O Problema de Deus recebeu a devida atenção da parte dos grandes filósofos da contemporaneidade. Aqui, destacamos de modo sintético, alguns elementos do pensamento de Nietzsche a respeito de Deus. Nietzsche tratou do tema, partindo da idéia da “morte de Deus”, tão necessária para eliminar valores e verdades absolutas que tem em Deus o seu fundamento.

Com uma crítica a religião, em especial ao cristianismo, bem como a toda ordem moral estabelecida, proclama a “morte de Deus” para o surgimento de um homem novo, livre de qualquer amarra da divindade e que, pela vontade de poder torna-se então capaz de construir a sua própria existência.

Segundo Juan Antônio Estrada, no seu livro Deus nas tradições filosóficas, Nietzsche anuncia a lenta morte de Deus e das certezas que se apoiavam nele (verdade, fundamento, sentido). Deus não existe, nem é necessário. Antecipa-se a crise sociocultural da fé em Deus e a secularização da sociedade e anuncia uma nova aurora a partir do que é possível criar um novo tipo de homem e de cultura.

O tema da morte de Deus aparece reiteradamente em sua obra, sobre tudo nos escritos dos anos 80. Trata-se de um processo lento, já que a morte de Deus, fundamento cristão dos valores, não elimina de um golpe os efeitos e conseqüências do cristianismo: a fé na verdade: que é também fé na razão; a busca de fundamentos absolutos, que não existem e são geradores do dogmatismo e do fanatismo religioso, político e filosófico.

A racionalização, a moralização, e a teologização dos valores são os males a combater. A religião tem duas vertentes: moralista e teológica. A moralização do mundo, potencializada por Kant, é o resultado da incapacidade de assumir a fragmentariedade e a negatividade da vida.

Nietzsche renega os postulados kantianos: expressam a auto-afirmação humana, que recorre a Deus porque não há suficiente vontade de poder. A crença compartilhada transforma-se me obstáculo para a vontade de poder do individuo. Daí a necessidade de um ideal totalizante em que integremos o ressentimento ante a vida.

A religião dramatiza a existência humana, surge como um protesto para escapar da caducidade humana e dar-lhe um significado infinito. É uma “má transcendência”, reverso da incapacidade para aceitar a finitude humana, que tende a negativizar a vida real, a simplificar a complexidade do real e as contradições da existência, e refugia-se em um outro mundo do além-túmulo.

A religião é um sistema que sacrifica o homem a partir de um projeto moral subjetivo que se legitima em Deus, que, como contrapartida exige uma fé e uma obediência radicais. Une-se a isto a teologização do mundo, que tem um sentido um porquê e um para quê. Daí a ilusão da liberdade, da responsabilidade e do pecado. O livre arbítrio exige um culpado e o instinto de vingança encobre-se como juízo e castigo divino. O homem perde sua inocência, sabe-se incriminado e pecador ante Deus, e vive ante o medo constante da divindade, que ameaça com castigo eterno.

Na religião o prazer se identifica com pecado e o gozo gera a culpa, com o que o desejo negativiza e culpa o homem que se contrapõe a Deus puro e santo. Impugna também a compaixão como uma forma de fraqueza: o amor ao próximo por Deus (porque ao homem não se pode amar por si mesmo) O amor a vida leva a recusar todo o supranaturalismo, a viver em função da utopia do futuro à custa do presente, e a apelação ao divino, que encobre a incapacidade de nos auto-afirmarmos a partir da fragmentariedade.

Nietzsche não entra diretamente a avaliar as provas da existência de Deus, mas expõe as raízes psicológicas e experimentais de que surge a necessidade de Deus.

A partir do que foi exposto é compreensível a critica nitzschiana a civilização ascética ocidental. Por isso, a crítica religiosa é insuficiente, deve-se estendê-la ao próprio homem, à historia e aos valores, a toda tradição humanista de que se tem alimentado o Ocidente.

Para Giorgio Penzo, no seu livro Deus na filosofia do século XX, Nietzsche considera que a raiz metafísica do conhecer como necessidade de segurança leva o homem a ver Deus como último horizonte de segurança e de verdade absoluta, donde a dimensão metafísica da fé como busca de uma segurança ultima. Para o homem metafísico, a morte de Deus e vivida de um modo dramático, justamente porque marca o fim de um longo desejo que é necessário ao homem para viver com uma consciência de segurança. Nietzsche faz sua essa angústia “desesperada” do homem metafísico diante do “avanço do niilismo”. Supera, porém, tal angustia, quando observa que a morte de Deus é um acontecimento cultural e existencial necessário para purificar a face de Deus e, por conseguinte a fé em Deus.

Nietzsche não mata Deus, mas limita-se a constatar a ausência do divino na cultura do seu tempo, acusando, pelo contrario, por essa ausência e morte, o pensamento metafísico.


quarta-feira, 13 de abril de 2011

MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI

PARA A XXVI JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE

2011

«Enraizados e edificados n’Ele... firmes na fé» (cf. Cl 2, 7).

Queridos amigos!

Penso com frequência na Jornada Mundial da Juventude de Sidney de 2008. Lá vivemos uma grande festa da fé, durante a qual o Espírito de Deus agiu com força, criando uma comunhão intensa entre os participantes, que vieram de todas as partes do mundo. Aquele encontro, assim como os precedentes, deu frutos abundantes na vida de numerosos jovens e de toda a Igreja. Agora, o nosso olhar dirige-se para a próxima Jornada Mundial da Juventude, que terá lugar em Madrid em Agosto de 2011. Já em 1989, poucos meses antes da histórica derrocada do Muro de Berlim, a peregrinação dos jovens fez etapa na Espanha, em Santiago de Compostela. Agora, num momento em que a Europa tem grande necessidade de reencontrar as suas raízes cristãs, marcamos encontro em Madrid, com o tema: «Enraizados e edificados em Cristo... firmes na fé» (cf. Cl 2, 7). Por conseguinte, convido-vos para este encontro tão importante para a Igreja na Europa e para a Igreja universal. E gostaria que todos os jovens, quer os que compartilham a nossa fé em Jesus Cristo, quer todos os que hesitam, que estão na dúvida ou não crêem n’Ele, possam viver esta experiência, que pode ser decisiva para a vida: a experiência do Senhor Jesus ressuscitado e vivo e do seu amor por todos nós.

Na nascente das vossas maiores aspirações!

1. Em todas as épocas, também nos nossos dias, numerosos jovens sentem o desejo profundo de que as relações entre as pessoas sejam vividas na verdade e na solidariedade. Muitos manifestam a aspiração por construir relacionamentos de amizade autêntica, por conhecer o verdadeiro amor, por fundar uma família unida, por alcançar uma estabilidade pessoal e uma segurança real, que possam garantir um futuro sereno e feliz. Certamente, recordando a minha juventude, sei que estabilidade e segurança não são as questões que ocupam mais a mente dos jovens. Sim, a procura de um posto de trabalho e com ele poder ter uma certeza é um problema grande e urgente, mas ao mesmo tempo a juventude permanece contudo a idade na qual se está em busca da vida maior. Se penso nos meus anos de então: simplesmente não nos queríamos perder na normalidade da vida burguesa. Queríamos o que é grande, novo. Queríamos encontrar a própria vida na sua vastidão e beleza. Certamente, isto dependia também da nossa situação. Durante a ditadura nacional-socialista e durante a guerra nós fomos, por assim dizer, «aprisionados» pelo poder dominante. Por conseguinte, queríamos sair fora para entrar na amplidão das possibilidades do ser homem. Mas penso que, num certo sentido, todas as gerações sentem este impulso de ir além do habitual. Faz parte do ser jovem desejar algo mais do que a vida quotidiana regular de um emprego seguro e sentir o anseio pelo que é realmente grande. Trata-se apenas de um sonho vazio que esvaece quando nos tornamos adultos? Não, o homem é verdadeiramente criado para aquilo que é grande, para o infinito. Qualquer outra coisa é insuficiente. Santo Agostinho tinha razão: o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti. O desejo da vida maior é um sinal do facto que foi Ele quem nos criou, de que temos a Sua «marca». Deus é vida, e por isso todas as criaturas tendem para a vida; de maneira única e especial a pessoa humana, feita à imagem de Deus, aspira pelo amor, pela alegria e pela paz. Compreendemos então que é um contra-senso pretender eliminar Deus para fazer viver o homem! Deus é a fonte da vida; eliminá-lo equivale a separar-se desta fonte e, inevitavelmente, a privar-se da plenitude e da alegria: «De facto, sem o Criador a criatura esvaece» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 36). A cultura actual, nalgumas áreas do mundo, sobretudo no Ocidente, tende a excluir Deus, ou a considerar a fé como um facto privado, sem qualquer relevância para a vida social. Mas o conjunto de valores que estão na base da sociedade provém do Evangelho — como o sentido da dignidade da pessoa, da solidariedade, do trabalho e da família — constata-se uma espécie de «eclipse de Deus», uma certa amnésia, ou até uma verdadeira rejeição do Cristianismo e uma negação do tesouro da fé recebida, com o risco de perder a própria identidade profunda.

Por este motivo, queridos amigos, convido-vos a intensificar o vosso caminho de fé em Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Vós sois o futuro da sociedade e da Igreja! Como escrevia o apóstolo Paulo aos cristãos da cidade de Colossos, é vital ter raízes, bases sólidas! E isto é particularmente verdadeiro hoje, quando muitos não têm pontos de referência estáveis para construir a sua vida, tornando-se assim profundamente inseguros. O relativismo difundido, segundo o qual tudo equivale e não existe verdade alguma, nem qualquer ponto de referência absoluto, não gera a verdadeira liberdade, mas instabilidade, desorientação, conformismo às modas do momento. Vós jovens tendes direito de receber das gerações que vos precedem pontos firmes para fazer as vossas opções e construir a vossa vida, do mesmo modo como uma jovem planta precisa de um sólido apoio para que as raízes cresçam, para se tornar depois uma árvore robusta, capaz de dar fruto.

Enraizados e fundados em Cristo

2. Para ressaltar a importância da fé na vida dos crentes, gostaria de me deter sobre cada uma das três palavras que São Paulo usa nesta sua expressão: «Enraizados e fundados em Cristo... firmes na fé» (cf. Cl 2, 7). Nela podemos ver três imagens: «enraizado» recorda a árvore e as raízes que a alimentam; «fundado» refere-se à construção de uma casa; «firme» evoca o crescimento da força física e moral. Trata-se de imagens muito eloquentes. Antes de as comentar, deve-se observar simplesmente que no texto original as três palavras, sob o ponto de vista gramatical, estão no passivo: isto significa que é o próprio Cristo quem toma a iniciativa de radicar, fundar e tornar firmes os crentes.

A primeira imagem é a da árvore, firmemente plantada no solo através das raízes, que a tornam estável e a alimentam. Sem raízes, seria arrastada pelo vento e morreria. Quais são as nossas raízes? Naturalmente, os pais, a família e a cultura do nosso país, que são uma componente muito importante da nossa identidade. A Bíblia revela outra. O profeta Jeremias escreve: «Bendito o homem que deposita a confiança no Senhor, e cuja esperança é o Senhor. É como a árvore plantada perto da água, a qual estende as raízes para a corrente; não teme quando vem o calor, a sua folhagem fica sempre verdejante. Não a inquieta a seca de um ano; continua a produzir frutos» (Jr 17, 7-8). Estender as raízes, para o profeta, significa ter confiança em Deus. D’Ele obtemos a nossa vida; sem Ele não poderíamos viver verdadeiramente. «Deus deu-nos a vida eterna, e esta vida está em Seu Filho» (1 Jo 5, 11). O próprio Jesus apresenta-se como nossa vida (cf. Jo 14, 6). Por isso a fé cristã não é só crer em verdades, mas é antes de tudo uma relação pessoal com Jesus Cristo, é o encontro com o Filho de Deus, que dá a toda a existência um novo dinamismo. Quando entramos em relação pessoal com Ele, Cristo revela-nos a nossa identidade e, na sua amizade, a vida cresce e realiza-se em plenitude. Há um momento, quando somos jovens, em que cada um de nós se pergunta: que sentido tem a minha vida, que finalidade, que orientação lhe devo dar? É uma fase fundamental, que pode perturbar o ânimo, às vezes também por muito tempo. Pensa-se no tipo de trabalho a empreender, quais relações sociais estabelecer, que afectos desenvolver... Neste contexto, penso de novo na minha juventude. De certa forma muito cedo tive a consciência de que o Senhor me queria sacerdote. Mais tarde, depois da Guerra, quando no seminário e na universidade eu estava a caminho para esta meta, tive que reconquistar esta certeza. Tive que me perguntar: é este verdadeiramente o meu caminho? É deveras esta a vontade do Senhor para mim? Serei capaz de Lhe permanecer fiel e de estar totalmente disponível para Ele, ao Seu serviço? Uma decisão como esta deve ser também sofrida. Não pode ser de outra forma. Mas depois surgiu a certeza: é bem assim! Sim, o Senhor quer-me, por isso também me dará a força. Ao ouvi-Lo, ao caminhar juntamente com Ele torno-me deveras eu mesmo. Não conta a realização dos meus próprios desejos, mas a Sua vontade. Assim a vida torna-se autêntica.

Tal como as raízes da árvore a mantêm firmemente plantada na terra, também os fundamentos dão à casa uma estabilidade duradoura. Mediante a fé, nós somos fundados em Cristo (cf. Cl 2, 7), como uma casa é construída sobre os fundamentos. Na história sagrada temos numerosos exemplos de santos que edificaram a sua vida sobre a Palavra de Deus. O primeiro foi Abraão. O nosso pai na fé obedeceu a Deus que lhe pedia para deixar a casa paterna a fim de se encaminhar para uma terra desconhecida. «Abraão acreditou em Deus e isso foi-lhe atribuído à conta de justiça e foi chamado amigo de Deus» (Tg 2, 23). Estar fundados em Cristo significa responder concretamente à chamada de Deus, confiando n’Ele e pondo em prática a sua Palavra. O próprio Jesus admoesta os seus discípulos: «Porque me chamais: “Senhor, Senhor” e não fazeis o que Eu digo?» (Lc 6, 46). E, recorrendo à imagem da construção da casa, acrescenta: «todo aquele que vem ter Comigo, escuta as Minhas palavras e as põe em prática, é semelhante a um homem que construiu uma casa: Cavou, aprofundou e assentou os alicerces sobre a rocha. Sobreveio a inundação, a torrente arremessou-se com violência contra aquela casa e não pôde abalá-la por ter sido bem construída» (Lc 6, 47-48).

Queridos amigos, construí a vossa casa sobre a rocha, como o homem que «cavou muito profundamente». Procurai também vós, todos os dias, seguir a Palavra de Cristo. Senti-O como o verdadeiro Amigo com o qual partilhar o caminho da vossa vida. Com Ele ao vosso lado sereis capazes de enfrentar com coragem e esperança as dificuldades, os problemas, também as desilusões e as derrotas. São-vos apresentadas continuamente propostas mais fáceis, mas vós mesmos vos apercebeis que se revelam enganadoras, que não vos dão serenidade e alegria. Só a Palavra de Deus nos indica o caminho autêntico, só a fé que nos foi transmitida é a luz que ilumina o caminho. Acolhei com gratidão este dom espiritual que recebestes das vossas famílias e comprometei-vos a responder com responsabilidade à chamada de Deus, tornando-vos adultos na fé. Não acrediteis em quantos vos dizem que não tendes necessidade dos outros para construir a vossa vida! Ao contrário, apoiai-vos na fé dos vossos familiares, na fé da Igreja, e agradecei ao Senhor por a ter recebido e feito vossa!

Firmes na fé

3. «Enraizados e fundados em Cristo... firmes na fé» (cf. Cl 2, 7). A Carta da qual é tirado este convite, foi escrita por São Paulo para responder a uma necessidade precisa dos cristãos da cidade de Colossos. Com efeito, aquela comunidade estava ameaçada pela influência de determinadas tendências culturais da época, que afastavam os fiéis do Evangelho. O nosso contexto cultural, queridos jovens, tem numerosas analogias com o tempo dos Colossenses daquela época. De facto, há uma forte corrente de pensamento laicista que pretende marginalizar Deus da vida das pessoas e da sociedade, perspectivando e tentando criar um «paraíso» sem Ele. Mas a experiência ensina que o mundo sem Deus se torna um «inferno»: prevalecem os egoísmos, as divisões nas famílias, o ódio entre as pessoas e entre os povos, a falta de amor, de alegria e de esperança. Ao contrário, onde as pessoas e os povos acolhem a presença de Deus, o adoram na verdade e ouvem a sua voz, constrói-se concretamente a civilização do amor, na qual todos são respeitados na sua dignidade, cresce a comunhão, com os frutos que ela dá. Contudo existem cristãos que se deixam seduzir pelo modo de pensar laicista, ou são atraídos por correntes religiosas que afastam da fé em Jesus Cristo. Outros, sem aderir a estas chamadas, simplesmente deixaram esmorecer a sua fé, com inevitáveis consequências negativas a nível moral.

Aos irmãos contagiados por ideias alheias ao Evangelho, o apóstolo Paulo recorda o poder de Cristo morto e ressuscitado. Este mistério é o fundamento da nossa vida, o centro da fé cristã. Todas as filosofias que o ignoram, que o consideram «escândalo» (1 Cor 1, 23), mostram os seus limites diante das grandes perguntas que habitam o coração do homem. Por isso também eu, como Sucessor do apóstolo Pedro, desejo confirmar-vos na fé (cf. Lc 22, 32). Nós cremos firmemente que Jesus Cristo se ofereceu na Cruz para nos doar o seu amor; na sua paixão, carregou os nossos sofrimentos, assumiu sobre si os nossos pecados, obteve-nos o perdão e reconciliou-nos com Deus Pai, abrindo-nos o caminho da vida eterna. Deste modo fomos libertados do que mais entrava a nossa vida: a escravidão do pecado, e podemos amar a todos, até os inimigos, e partilhar este amor com os irmãos mais pobres e em dificuldade.

Queridos amigos, muitas vezes a Cruz assusta-nos, porque parece ser a negação da vida. Na realidade, é o contrário! Ela é o «sim» de Deus ao homem, a expressão máxima do seu amor e a nascente da qual brota a vida eterna. De facto, do coração aberto de Jesus na cruz brotou esta vida divina, sempre disponível para quem aceita erguer os olhos para o Crucificado. Portanto, não posso deixar de vos convidar a aceitar a Cruz de Jesus, sinal do amor de Deus, como fonte de vida nova. Fora de Cristo morto e ressuscitado, não há salvação! Só Ele pode libertar o mundo do mal e fazer crescer o Reino de justiça, de paz e de amor pelo qual todos aspiram.

Crer em Jesus Cristo sem o ver

4. No Evangelho é-nos descrita a experiência de fé do apóstolo Tomé ao acolher o mistério da Cruz e da Ressurreição de Cristo. Tomé faz parte dos Doze apóstolos; seguiu Jesus; foi testemunha directa das suas curas, dos milagres; ouviu as suas palavras; viveu a desorientação perante a sua morte. Na noite de Páscoa o Senhor apareceu aos discípulos, mas Tomé não estava presente, e quando lhe foi contado que Jesus estava vivo e se mostrou, declarou: «Se eu não vir o sinal dos cravos nas Suas mãos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e não meter a mão no Seu lado, não acreditarei» (Jo 20, 25).

Também nós gostaríamos de poder ver Jesus, de poder falar com Ele, de sentir ainda mais forte a sua presença. Hoje para muitos, o acesso a Jesus tornou-se difícil. Circulam tantas imagens de Jesus que se fazem passar por científicas e O privam da sua grandeza, da singularidade da Sua pessoa. Portanto, durante longos anos de estudo e meditação, maturou em mim o pensamento de transmitir um pouco do meu encontro pessoal com Jesus num livro: quase para ajudar a ver, a ouvir, a tocar o Senhor, no qual Deus veio ao nosso encontro para se dar a conhecer. De facto, o próprio Jesus aparecendo de novo aos discípulos depois de oito dias, diz a Tomé: «Chega aqui o teu dedo e vê as Minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no Meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente» (Jo 20, 27). Também nós temos a possibilidade de ter um contacto sensível com Jesus, meter, por assim dizer, a mão nos sinais da sua Paixão, os sinais do seu amor: nos Sacramentos Ele torna-se particularmente próximo de nós, doa-se a nós. Queridos jovens, aprendei a «ver», a «encontrar» Jesus na Eucaristia, onde está presente e próximo até se fazer alimento para o nosso caminho; no Sacramento da Penitência, no qual o Senhor manifesta a sua misericórdia ao oferecer-nos sempre o seu perdão. Reconhecei e servi Jesus também nos pobres, nos doentes, nos irmãos que estão em dificuldade e precisam de ajuda.

Abri e cultivai um diálogo pessoal com Jesus Cristo, na fé. Conhecei-o mediante a leitura dos Evangelhos e do Catecismo da Igreja Católica; entrai em diálogo com Ele na oração, dai-lhe a vossa confiança: ele nunca a trairá! «Antes de mais, a fé é uma adesão pessoal do homem a Deus. Ao mesmo tempo, e inseparavelmente, é o assentimento livre a toda a verdade revelada por Deus» (Catecismo da Igreja Católica, n. 150). Assim podereis adquirir uma fé madura, sólida, que não estará unicamente fundada num sentimento religioso ou numa vaga recordação da catequese da vossa infância. Podereis conhecer Deus e viver autenticamente d’Ele, como o apóstolo Tomé, quando manifesta com força a sua fé em Jesus: «Meu Senhor e meu Deus!».

Amparados pela fé da Igreja para ser testemunhas

5. Naquele momento Jesus exclama: «Porque Me viste, acreditaste. Bem-aventurados os que, sem terem visto, acreditaram!» (Jo 20, 29). Ele pensa no caminho da Igreja, fundada sobre a fé das testemunhas oculares: os Apóstolos. Compreendemos então que a nossa fé pessoal em Cristo, nascida do diálogo com Ele, está ligada à fé da Igreja: não somos crentes isolados, mas, pelo Baptismo, somos membros desta grande família, e é a fé professada pela Igreja que dá segurança à nossa fé pessoal. O credo que proclamamos na Missa dominical protege-nos precisamente do perigo de crer num Deus que não é o que Jesus nos revelou: «Cada crente é, assim, um elo na grande cadeia dos crentes. Não posso crer sem ser motivado pela fé dos outros, e pela minha fé contribuo também para guiar os outros na fé» (Catecismo da Igreja Católica, n. 166). Agradeçamos sempre ao Senhor pelo dom da Igreja; ela faz-nos progredir com segurança na fé, que nos dá a vida verdadeira (cf. Jo 20, 31).

Na história da Igreja, os santos e os mártires hauriram da Cruz gloriosa de Cristo a força para serem fiéis a Deus até à doação de si mesmos; na fé encontraram a força para vencer as próprias debilidades e superar qualquer adversidade. De facto, como diz o apóstolo João, «Quem é que vence o mundo senão aquele que crê que Jesus é Filho de Deus?» (1 Jo 5, 5). E a vitória que nasce da fé é a do amor. Quantos cristãos foram e são um testemunho vivo da força da fé que se exprime na caridade; foram artífices de paz, promotores de justiça, animadores de um mundo mais humano, um mundo segundo Deus; comprometeram-se nos vários âmbitos da vida social, com competência e profissionalidade, contribuindo de modo eficaz para o bem de todos. A caridade que brota da fé levou-os a dar um testemunho muito concreto, nas acções e nas palavras: Cristo não é um bem só para nós próprios, é o bem mais precioso que temos para partilhar com os outros. Na era da globalização, sede testemunhas da esperança cristã em todo o mundo: são muitos os que desejam receber esta esperança! Diante do sepulcro do amigo Lázaro, morto havia quatro dias, Jesus, antes de o chamar de novo à vida, disse à sua irmã Marta: «Se acreditasses, verias a glória de Deus» (cf. Jo 11, 40). Também vós, se acreditardes, se souberdes viver e testemunhar a vossa fé todos os dias, tornar-vos-eis instrumentos para fazer reencontrar a outros jovens como vós o sentido e a alegria da vida, que nasce do encontro com Cristo!

Rumo à Jornada Mundial de Madrid

6. Queridos amigos, renovo-vos o convite a ir à Jornada Mundial da Juventude a Madrid. É com profunda alegria que espero cada um de vós pessoalmente: Cristo quer tornar-vos firmes na fé através a Igreja. A opção de crer em Cristo e de O seguir não é fácil; é dificultada pelas nossas infidelidades pessoais e por tantas vozes que indicam caminhos mais fáceis. Não vos deixeis desencorajar, procurai antes o apoio da Comunidade cristã, o apoio da Igreja! Ao longo deste ano preparai-vos intensamente para o encontro de Madrid com os vossos Bispos, os vossos sacerdotes e os responsáveis da pastoral juvenil nas dioceses, nas comunidades paroquiais, nas associações e nos movimentos. A qualidade do nosso encontro dependerá sobretudo da preparação espiritual, da oração, da escuta comum da Palavra de Deus e do apoio recíproco.

Amados jovens, a Igreja conta convosco! Precisa da vossa fé viva, da vossa caridade e do dinamismo da vossa esperança. A vossa presença renova a Igreja, rejuvenesce-a e confere-lhe renovado impulso. Por isso as Jornadas Mundiais da Juventude são uma graça não só para vós, mas para todo o Povo de Deus. A Igreja na Espanha está a preparar-se activamente para vos receber e para viver juntos a experiência jubilosa da fé. Agradeço às dioceses, às paróquias, aos santuários, às comunidades religiosas, às associações e aos movimentos eclesiais, que trabalham com generosidade na preparação deste acontecimento. O Senhor não deixará de os abençoar. A Virgem Maria acompanhe este caminho de preparação. Ela, ao anúncio do Anjo, acolheu com fé a Palavra de Deus; com fé consentiu a obra que Deus estava a realizar nela. Pronunciando o seu «fiat», o seu «sim», recebeu o dom de uma caridade imensa, que a levou a doar-se totalmente a Deus. Interceda por cada um e cada uma de vós, para que na próxima Jornada Mundial possais crescer na fé e no amor. Garanto-vos a minha recordação paterna na oração e abençoo-vos de coração.

Vaticano, 6 de Agosto de 2010, Festa da Transfiguração do Senhor.

BENEDICTUS PP. XVI

Semana Santa

Caríssimos:
Estamos chegando à Semana Santa, o período em que relembraremos a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo Senhor nosso. A igreja nos orienta que nessa semana busquemos entrar e clima de oração, para que celebremos bem a Páscoa da Ressurreição, uma passagem de homens velhos .que somos para Homens novos, renovados pela graça de Deus, inspirados pelo Espírito Santo

Palavras do Santo Padre:

Amados irmãos e irmãs!

No Cenáculo, na noite anterior à sua paixão, o Senhor rezou pelos discípulos reunidos ao seu redor, estendendo ao mesmo tempo o olhar para a comunidade dos discípulos de todos os séculos, para «aqueles que – disse – vão acreditar em Mim por meio da sua palavra» (Jo 17, 20). Na oração pelos discípulos de todos os tempos, Ele viu-nos também a nós e rezou por nós. Ouçamos o que pede para os Doze e para nós aqui reunidos: «Consagra-os na verdade. A tua palavra é a verdade. Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. Eu consagro-Me por eles, para que também eles sejam consagrados na verdade» (Jo 17, 17s). O Senhor pede a nossa santificação, a nossa consagração na verdade. E envia-nos para continuarmos a sua própria missão. Mas há, nesta oração, uma palavra que chama a nossa atenção; parece-nos pouco compreensível. Jesus diz: «Eu consagro-Me por eles». Que significa? Porventura não é Jesus por natureza «o Santo de Deus», como Pedro confessou na hora decisiva de Cafarnaum (cf. Jo 6, 69)? Como pode agora consagrar-Se, isto é, santificar-Se a Si mesmo?

Para o compreendermos, temos sobretudo de esclarecer o significado das palavras «santo» e «santificar/consagrar», na Bíblia. «Santo»: com esta palavra, descreve-se em primeiro lugar a natureza do próprio Deus, o seu modo de ser muito particular, divino, que é próprio só d’Ele. Só Ele é o verdadeiro e autêntico Santo no sentido originário. Qualquer outra santidade deriva d’Ele, é participação no seu modo de ser. Ele é a Luz puríssima, a Verdade e o Bem sem mancha. Por isso, consagrar alguma coisa ou alguém significa dar tal coisa ou pessoa em propriedade a Deus, tirá-la do âmbito daquilo que é nosso e inseri-la na atmosfera d’Ele, de tal modo que deixe de pertencer às nossas coisas para ser totalmente de Deus. Consagração é, pois, tirar do mundo e entregar ao Deus vivo. Aquela coisa ou pessoa deixa de pertencer a nós ou a si mesma, mas é imersa em Deus. Este acto de privar-se duma coisa para a entregar a Deus, chamamo-lo também sacrifício: já não será propriedade minha, mas d’Ele. No Antigo Testamento, a entrega duma pessoa a Deus, isto é, a sua «santificação» coincide com a sua ordenação sacerdotal, e assim se define também em que consiste o sacerdócio: é uma passagem de propriedade, um ser tirado do mundo e dado a Deus. E, deste modo, ficam agora patentes as duas direcções que fazem parte do processo da santificação/consagração: sair dos contextos da vida do mundo e «ser posto à parte» para Deus. Mas por isto mesmo não é uma segregação; antes, ser entregue a Deus significa ser posto a representar os outros. O sacerdote é subtraído aos laços do mundo e dado a Deus, e precisamente assim, a partir de Deus, deve estar disponível para os outros, para todos. Quando Jesus diz «Eu consagro-Me», faz-Se simultaneamente sacerdote e vítima. Por conseguinte, Bultmann tem razão ao traduzir a afirmação «Eu consagro-Me» por «Eu sacrifico-Me». Compreendemos nós agora o que acontece quando Jesus diz «Eu consagro-Me por eles»? Isto é o acto sacerdotal em que Jesus – o Homem Jesus, que forma um só com o Filho de Deus – Se entrega ao Pai por nós. É a expressão do facto que Ele é ao mesmo tempo sacerdote e vítima. Consagro-Me, sacrifico-Me: esta palavra abismal, que nos permite lançar um olhar no íntimo do coração de Jesus Cristo, deveria ser sempre de novo objecto da nossa reflexão. Nela se encerra todo o mistério da nossa redenção. E nela está contida também a origem do sacerdócio da Igreja, do nosso sacerdócio.

Só agora podemos compreender até ao fundo a oração que o Senhor apresentou ao Pai pelos discípulos, por nós. «Consagra-os na verdade»: isto é a integração dos apóstolos no sacerdócio de Jesus Cristo, a instituição do seu sacerdócio novo para a comunidade dos fiéis de todos os tempos. «Consagra-os na verdade»: esta é a verdadeira oração de consagração pelos apóstolos. O Senhor pede que o próprio Deus os atraia a Si, para dentro da sua santidade. Pede que Ele os subtraia a si mesmos e os tome como sua propriedade, a fim de que, a partir d’Ele, possam desempenhar o serviço sacerdotal pelo mundo. Esta oração de Jesus aparece duas vezes, de forma ligeiramente modificada. Temos de ouvir as duas com muita atenção, para começar a entender, pelo menos vagamente, a realidade sublime que aqui se está a verificar: «Consagra-os na verdade» e – Jesus acrescenta – «a tua palavra é a verdade». Por conseguinte os discípulos são atraídos para o íntimo de Deus por meio da sua imersão na palavra de Deus. A palavra de Deus é, por assim dizer, o banho que os purifica, o poder criador que os transforma no ser de Deus. Sendo assim, como se está a realizar isto na nossa vida? Somos verdadeiramente permeados pela palavra de Deus? É verdade que esta é o alimento de que vivemos, mais de quanto o seja o pão e as coisas deste mundo? Conhecemo-la verdadeiramente? Amamo-la? De tal modo nos ocupamos interiormente desta palavra, que a mesma dá realmente um timbre à nossa vida e forma o nosso pensamento? Ou não sucede antes que o nosso pensamento se deixa modelar incessantemente por tudo o que se diz e faz? Porventura não são tantas vezes as opiniões predominantes os critérios pelos quais nos regulamos? No fim de contas, não ficamos porventura na superficialidade de tudo o que, habitualmente, se impõe ao homem de hoje? Deixamo-nos verdadeiramente purificar no nosso íntimo pela palavra de Deus? Nietzsche desdenhou a humildade e a obediência como sendo virtudes servis, pelas quais os homens teriam sido reprimidos. No seu lugar, colocou a ufania e a liberdade absoluta do homem. Ora bem, existem caricaturas duma humildade falsa e duma submissão errada, que não queremos imitar. Mas há também a soberba destrutiva e a presunção, que desagregam qualquer comunidade e acabam na violência. Sabemos nós aprender de Cristo a recta humildade, que corresponde à verdade do nosso ser, e aquela obediência que se submete à verdade, à vontade de Deus? «Consagra-os na verdade. A tua palavra é a verdade»: esta palavra da integração no sacerdócio ilumina a nossa vida e chama-nos a tonarmo-nos sem cessar discípulos daquela verdade que se manifesta na palavra de Deus.

Na interpretação desta frase, podemos dar ainda mais um passo. Não disse Cristo de Si mesmo: «Eu sou a verdade» (cf. Jo 14, 6)? E não é porventura Ele a Palavra viva de Deus, à qual todas e cada uma das outras palavras fazem referência? Assim, consagra-os na verdade quer dizer, fundamentalmente: torna-os um só comigo, Cristo. Une-os a Mim. Atrai-os para dentro de Mim. E de facto, em última análise, há apenas um único sacerdote da Nova Aliança: o próprio Jesus Cristo. E, por conseguinte, o sacerdócio dos discípulos só pode ser participação no sacerdócio de Jesus. Portanto o nosso ser sacerdotes nada mais é que um novo e radical modo de unificação com Cristo. Esta foi-nos substancialmente concedida para sempre no Sacramento. Mas este novo timbre do ser pode tornar-se para nós um juízo de condenação, se a nossa vida não se desenvolve entrando na verdade do Sacramento. A tal propósito, as promessas que hoje renovamos dizem que a nossa vontade assim se deve orientar: «Domino Iesu arctius coniungi et conformari, vobismetipsis abrenuntiantes». Unir-se a Cristo supõe a renúncia. Comporta não querermos impor a nossa estrada e a nossa vontade; não desejarmos tornar-nos isto ou aquilo, mas abandonarmo-nos a Ele em todo o lado e modo como Ele quiser servir-Se de nós. «Vivo, e contudo já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim», disse São Paulo a tal propósito (cf.Gal 2, 20). No «sim» da Ordenação Sacerdotal, fizemos esta renúncia fundamental a querer ser autónomos, à «auto-realização». Mas é preciso dia após dia cumprir este grande «sim» nos múltiplos «sins» e nas pequenas renúncias. Entretanto este «sim» dos pequenos passos, que juntos constituem o grande «sim», só poderá realizar-se sem amargura nem autocomiseração, se Cristo for verdadeiramente o centro da nossa vida; se cultivarmos uma verdadeira familiaridade com Ele. De facto, então experimentaremos no meio das renúncias, que num primeiro momento podem causar sofrimento, a alegria crescente da amizade com Ele, todos os pequenos e às vezes grandes sinais do seu amor, que nos dá continuamente. «Aquele que se perde a si mesmo, encontra-se». Se ousamos perder-nos a nós mesmos pelo Senhor, experimentaremos como é verdadeira a sua palavra.

Deste processo de sermos imersos na Verdade, em Cristo, faz parte a oração, na qual nos exercitamos na amizade com Ele e também aprendemos a conhecê-Lo: o seu modo de ser, de pensar, de agir. Rezar é fazer estrada em comunhão pessoal com Cristo, expondo diante d’Ele a nossa vida diária, os nossos sucessos e os nossos falimentos, as nossas fadigas e as nossas alegrias: é simplesmente apresentarmo-nos a nós mesmos diante d’Ele. Mas, para que isto não se torne um autocontemplar-se, é importante aprendermos continuamente a orar rezando com a Igreja. Celebrar a Eucaristia quer dizer rezar. Celebramos no justo modo a Eucaristia, se, com o nosso pensamento e com o nosso ser, penetramos nas palavras que a Igreja nos propõe. Nelas está presente a oração de todas as gerações, que nos tomam consigo ao longo do caminho para o Senhor. E, como sacerdotes, somos na celebração eucarística aqueles que, com a sua oração, abrem estrada à oração dos fiéis de hoje. Se estivermos interiormente unidos às palavras da oração, se nos deixarmos guiar e transformar por elas, então também os fiéis encontram o acesso a tais palavras. Então tornamo-nos todos verdadeiramente «um só corpo e uma só alma» com Cristo.

Ser imersos na verdade e, deste modo, na santidade de Deus significa para nós também aceitar o carácter exigente da verdade; contrapor-se, tanto nas coisas grandes como nas pequenas, à mentira, que de modo tão variado está presente no mundo; aceitar a fadiga da verdade, para que a sua alegria mais profunda esteja presente em nós. Quando falamos de ser consagrados na verdade, também não devemos esquecer que, em Jesus Cristo, verdade e amor são uma coisa só. Ser imersos n’Ele significa ser imersos na sua bondade, no amor verdadeiro. O amor verdadeiro não se adquire a baixo preço, pode ser até muito exigente. Opõe resistência ao mal, para levar ao homem o verdadeiro bem. Se nos tornamos um só com Cristo, aprendemos a reconhecê-Lo precisamente nos doentes, nos pobres, nos pequenos deste mundo; tornamo-nos então pessoas que servem, que reconhecem os irmãos e irmãs d’Ele e, nestes, encontramo-Lo a Ele mesmo.

«Consagra-os na verdade» – tal é a primeira parte daquela frase de Jesus. Mas depois acrescenta: «Eu consagro-Me por eles, para que também eles sejam consagrados de verdade», isto é, verdadeiramente (cf. Jo 17, 19). Penso que esta segunda parte encerre um específico significado. Nas religiões do mundo, existem variados modos rituais de «santificação», de consagração duma pessoa humana. Mas todos estes ritos podem permanecer algo de simplesmente formal. Cristo pede para os discípulos a verdadeira santificação, que transforme o seu ser, que os transforme a eles mesmos; que não fique uma forma ritual, mas seja um tornar-se verdadeiramente propriedade do próprio Deus. Poderemos também dizer: Cristo pediu para nós o Sacramento que nos toca na profundeza do nosso ser. Mas pediu também que esta transformação em nós dia após dia se traduza em vida; que no nosso quotidiano e na nossa vida concreta de cada dia sejamos verdadeiramente permeados pela luz de Deus.

Na vigília da minha Ordenação Sacerdotal, há 58 anos, abri a Sagrada Escritura, porque queria ainda receber uma palavra do Senhor para aquele dia e para o meu futuro caminho de sacerdote. O meu olhar deteve-se neste texto: «Consagra-os na verdade. A tua palavra é a verdade». Então dei-me conta: o Senhor está a falar de mim, e está a falar a mim; é isto mesmo que amanhã sucederá comigo. Em última análise, não somos consagrados através de ritos, embora haja necessidade de ritos. O banho, onde o Senhor nos imerge, é Ele próprio – a Verdade em pessoa. Ordenação Sacerdotal significa ser imersos n’Ele, na Verdade. Fico a pertencer de modo novo a Ele e, deste modo, aos outros, «para que venha o seu Reino». Queridos amigos, nesta hora da renovação das promessas, queremos pedir ao Senhor que nos faça ser homens de verdade, homens de amor, homens de Deus. Peçamos-Lhe para nos atrair cada vez mais para dentro d’Ele, a fim de nos tornarmos verdadeiramente sacerdotes da Nova Aliança. Amen.