OLÁ FILÓSOFOS E FILÓSOFAS

Quando iniciamos um curso de Filosofia ou aulas de cunho filosófico, ouvimos a primeira pergunta "filosófica": "Para que serve a Filosofia?"
É a essa e várias outras perguntas que nesse nosso Blog perseguiremos. Não vamos dar respostas prontas, mas nos ajudaremos a encontrarmos nossas respostas!

Boa leitura, boa pesquisa!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

VOCÊ É REALMENTE LIVRE OU UM "SERVO" VOLUNTÁRIO?

Por Jucelino Carvalho
Professor de Filosofia e Religião
Licenciado em Filosofia pela FAERPI
Bacharel em Teologia pela FAERPI
Graduando em História pela UNEB.


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A um tempo atrás, estive lendo uma obra publicada em 1563, mas que achei com um conteúdo muito atual: O discurso da servidão voluntária de Etienne de La Boétie. Porquê comparar uma obra do século XVI com a situação atual? Lendo esse pequeno artigo poderemos compreender.
Nessa obra, o autor trata sobre a questão da submissão a que os povos se sujeitam, sendo isso uma servidão, uma escravidão voluntária, frente a um soberano ou a poucas pessoas que governam.
O homem como tal é um ser social e, sendo assim, vive em sociedade. Porém é difícil compreender como em uma sociedade, todo um povo, um grande número de pessoas se submete à vontade, ao governo de um só homem. Essa discussão posteriormente traria uma tentativa de explicação através dos filósofos contratualistas. Mas para La Boétie, o homem é um ser livre por natureza. A servidão por si só não é boa pois é perceptível que nem os animais acham aprazível servir. Sendo livre, como se deixa o homem, "escravizar-se", como aceita servir?
O primeiro critério que coloca o homem para servir é o tipo de governo ou tirano. Há três tipos de tiranos: aquele que lançou mão ao poder pela conquista e trata o povo como objeto conquistado; aquele que recebeu o poder como herança e trata o povo como qualquer outra coisa herdada; e aquele que recebeu o poder pela escolha do povo, que ao chegar lá, não quer mais entregar a ninguém, como em regimes ditatoriais entre outros. Para La Boetie, esse é o pior dos tiranos.
Na história das sociedades, vários povos já viveram servindo tiranos que maltratavam os seus súditos para sugar-lhes a sua riqueza e assim poder esbanjá-la. Aqueles que se tornam servos desses, o fazem pelo hábito, pois, quando a servidão é imposta a força (na época) ou ideologicamente (na atualidade), no princípio o povo serve por obrigação, mas depois de um tempo, essa obrigação é esquecida ou até manipulada para escondê-la de uma forma que o povo acaba servindo por hábito e acha natural "servir".
Remontando a Aristóteles, filósofo clássico, no seu livro "A Política" defendia que era natural existir pessoas servidoras e pessoas servidas. Vivendo ele em uma sociedade escravagista, a Grécia Antiga, para ele o escravo teria que aceitar sua condição como natural, assim como a mulher serva do homem¹. La Boétie considerava a servidão natural um absurdo.
No Brasil, a cultura escravocrata se desenvolveu no período da colonização, onde através da tortura e do sofrimento, os negros eram obrigados a renunciar e esquecer sua liberdade e ao longo dos séculos muitos passaram a servir por hábito. Na atualidade, a situação que leva o povo a servir é a alienação através das ideologias.
Através dos tempos, muitos tiranos para abafar a servidão imposta ao povo e assim tirar-lhes a liberdade sem usar a força, fizeram uso de recursos e projetos alienantes, que passavam para os súditos uma imagem de riqueza do soberano, ficando o povo admirado e esquecendo-se facilmente da sua liberdade e aceitando a servidão. Em Roma, por exemplo, os imperadores utilizaram espetáculos, circos, adotando métodos como o "panem et circenses (pão e circo), onde o povo recebia alimento (como ração) e participava dos espetáculos nas arenas. Quando o imperador se apoderava de seus bens, esses engoliam calados a sua própria infelicidade.
Muitas vezes a Igreja também foi usada como meio de esconder a servidão do povo, pois os camponeses continuavam na miséria servindo aos monarcas da Idade Média, que cobravam vários impostos, sendo os camponeses e outros servidores "consolados" com a ideia de uma vida feliz no céu. Trocavam sua liberdade por uma ideologia.
No mundo contemporâneo, o homem também já passou e continua vivendo vários processos de alienação para acostumar-se à servidão. No século XX foi visto o uso que Hitler fez dos meios de comunicação de massa para impor ao povo a ideia do super-homem e da superioridade da raça ariana, motivo que levou a Alemanha a uma catástrofe humana que ainda hoje tentam esquecer. Os meios de comunicação a partir de então, tornaram-se grandes acessórios para impor aos homens necessidades, desejos e ideias, interferindo nas atitudes e decisões dos indivíduos. Para Kant, a liberdade se baseia na autonomia da vontade, ou seja, o homem só é livre se tem o conhecimento das leis e do modelo cultural vigente. Mas o que acontece é uma transformação de muitos indivíduos em "Maria vai com as outras", ou seja, com o capitalismo, os meios de comunicação se tornaram um reduto de propaganda que levam os consumidores uma certa ideia de igualdade no poder de compra e em necessidades inexistentes, gerando um consumismo exacerbado. O mass media também acaba influenciando a família, a educação e diversos outros setores da sociedade, transformando-se em um novo tipo de servidão.
Com tudo isso, vemos que o homem é por natureza livre, mas nem sempre permanece livre, pois, vivendo em sociedade com modelos que muitas vezes lhes são impostos, acabam sendo coagidos a viver na servidão, criando o falso postulado que todos são iguais, mesmo uns servindo aos outros que lucram desses serviços. A sociedade em si, com o mass media, a educação e alguns modelos culturais colocam uma máscara no indivíduo que o impede de ver a sua liberdade e aceitar assim a servidão ao governo, ao mercado, ao outro. O ser humano na sociedade atual vive como se estivesse em um Shopping Center, sem janelas, sem perspectiva de ver além daquilo que lhe dizem possuir. Isso é servidão voluntária.

ARISTOTELES, Politique, Vol. I, Paris 1991, p.106

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A MORTE EM SÓCRATES

Por Jucelino Carvalho
Licenciado em Filosofia pela FAERPI
Bacharel em Teologia pela FAERPI
Graduando em História pela UNEB.

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No diálogo socrático-platônico, o Fédon, na sua quinta parte em diante, Sócrates põe em questão juntamente com seus interlocutores, sobre a questão do desejo da morte pelo verdadeiro amante da sabedoria. Olhando seus discursos, percebe-se que ele seguia a religião do meio em que vivia mas não de forma comum, além de ter influência dos Órficos. Para ele, o corpo é o cárcere da alma ou o túmulo, pois, quando estamos vivos na corporeidade, a nossa alma não está verdadeiramente viva, já que não está voltada para si mesma. O homem, ou seja, a alma humana quando presa ao corpo, está sujeita a diversas mazelas, paixões, desejo de riqueza, que impede a alma de alcançar as virtudes dos deuses, que é a justiça e a verdadeira sabedoria. Para Sócrates, essas virtudes só são conhecidas em parte pelo homem, não chegando à totalidade.
Com isso, todo filósofo que segue e que ama verdadeiramente a sabedoria, não tem outro desejo senão libertar-se do cárcere que é o corpo, apartando-se dele e contemplar o conhecimento na sua completude. Por isso, é necessário ao Filósofo enquanto estiver preso ao corpo, purificar-se ou fugir do mundo, livrando-se ao máximo de suas paixões, para poder um dia viver junto aos deuses.
No entanto, mesmo desejando essa partida, essa saída do corpo, que é a sua libertação, não é permitido ao homem a liberdade de provocar a sua morte, ou seja, o suicídio. Com isso, Sócrates vem a dizer que, mesmo que o indivíduo deseje a morte, não poderia ocasionar, pois um homem dotado de razão não desobedeceria aos deuses. Seguindo as crenças de sua época, ele acreditava serem os "deuses" incumbidos de guardar e zelar os homens, e esses são suas propriedades. Sendo assim, não seria conveniente aceitar que aqueles designados sob sua tutela viessem a tirar a própria vida sem que seja pelas ordens da divindade. Por isso que ele aceita a sua morte como cumprimento da lei, seria mais uma questão de cidadania. Indo um pouco ao final do discurso, se vê Sócrates pedindo a Críton para que esse oferecesse uma oferenda ao deus saúde Asclépio, e ele acreditar estar sendo liberto do cárcere do corpo. Essa oferenda é ao mesmo tempo uma sátira como agradecimento pela sua liberdade.
Assim, o homem que é provido de razão e verdadeiro amante da sabedoria, deseja a morte, mas assim como todos, mesmo quando se trata daqueles que vivem uma vida "miserável" que seria melhor a morte, para Sócrates nenhum indivíduo tem o direito e liberdade de tirar sua própria vida, cabendo assim aos "deuses" julgar o melhor tempo. Conclui-se então a liberdade humana para Sócrates é limitada.