OLÁ FILÓSOFOS E FILÓSOFAS

Quando iniciamos um curso de Filosofia ou aulas de cunho filosófico, ouvimos a primeira pergunta "filosófica": "Para que serve a Filosofia?"
É a essa e várias outras perguntas que nesse nosso Blog perseguiremos. Não vamos dar respostas prontas, mas nos ajudaremos a encontrarmos nossas respostas!

Boa leitura, boa pesquisa!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A existência do Primeiro Motor em Aristóteles

Sabe-se que toda causa age para produzir um efeito. Para provar a existência de Deus, Aristóteles faz uma passagem pela causa eficiente, a causa que dar movimento as coisas. Esse movimento causado pela causa eficiente, está presente nos seres, quando há o movimento de potência para ato. Toda coisa que se move é movida por outra, e sendo dessa maneira, o movimento é constante. No entanto, é impossível ir até o infinito na serie das causas, como na própria causa eficiente, ou das causas finais, os fins últimos, e que, portanto, deve haver em cada série um primeiro princípio do qual depende toda essa série causal, o qual veremos adiante.

Esse problema está presente na metafísica aristotélica onde ele procura demonstrar a existência de um primeiro motor, pois sendo o movimento de uma coisa causado por outra, uma coisa pode estar em movimento em um momento (tempo), e em repouso em outro momento. Entrando nisso, a questão do tempo, que em Aristóteles é eterno, pois desde quando se pensa um antes e um depois, estamos situando um certo tempo. Se pensamos quando começou o tempo, ou o que existia antes do tempo, entramos em contradição pois já estamos colocando tempo, ou seja, em Aristóteles não existe um começo e um fim, tudo existe desde sempre, e sempre vai existir. Sendo o tempo o numero do movimento, conforme o antes e o depois, ou seja a medida do movimento, esse movimento também é eterno já que sempre que se pensa em tempo se pensa em uma sucessão de movimento.

Sendo o movimento eterno, eterno também é a coisa que comunica esse movimento, pois não podemos remontar ao infinito, e se assim não o podemos existe um motor que é imóvel, que move sem ser movido, pois do contrário não seria primeiro motor, causa do movimento, isso é Deus.

Assim, Deus é eterno, imóvel, ato puro, privado de potência e de matéria, pura vida espiritual. Dele depende a natureza, o céu e tudo o que existe. Esse Deus não é criador, não age sobre a matéria criando-a, não cuida do mundo nem o conhece, pois não pode ter nenhum contato com ele. Deus não se importa com o mundo, pode-se assim dizer, mas o mundo que sente o fascínio por Deus e se move em direção dele, como para sua meta final.

Além disso, sendo Deus totalmente espiritual, ele é pensamento de pensamento, já que ele não pensa o mundo, nem o homem. Deus pensa aquilo que é mais excelente, ou seja, ele próprio.

“O pensamento que é pensamento por si mesmo tem como objeto aquilo que é por si mesmo mais excelente em máximo grau. A inteligência pensa a si mesma, captando-se como inteligível: com efeito, ela torna-se inteligível intuindo e pensando a si mesmo de modo que inteligência e inteligível coincidem [...]. Assim, se a inteligência divina é aquilo que existe de mais excelente ela pensa a si mesma e o seu pensamento é pensamento de pensamento.” 1



Deus não está voltado para o mundo ou para as coisas materiais ou para o homem, como é visto no cristianismo, mas Deus se volta para si mesmo. Assim Aristóteles liberta Deus de todo o antropomorfismo existente em sua época, e o coloca totalmente transcendente, lhe conferindo assim uma expressão sublime.



FILOSOFIA MEDIEVAL:



· Filosofia iluminada pela fé, ou melhor, precedida pela fé.

· Colaboração harmoniosa entre fé e razão.

· Convergência entre razão humana e sabedoria divina.





SANTO AGOSTINHO – Século IV



“Quando se trata de Deus, o pensamento é mais verdadeiro do que a palavra e a realidade de Deus mais verdadeira do que o pensamento.”



Ø Para Santo Agostinho, quando o ser humano alcança a verdade ele também alcança a Deus.

Ø Em sua obra “Cidade de Deus” Agostinho afirma: “Deixando de lado inclusive o testemunho dos profetas, o próprio mundo, com sua ordenadíssima variedade e mutabilidade e com a beleza de todos os objetos sensíveis, proclama ter sido feito por Deus, inefável e invisivelmente grande e belo”.

Ø De acordo com Santo Agostinho, é tal o poder de Deus que ele não pode permanecer totalmente oculto a criatura racional, desde que ela tenha começado a fazer uso da razão. Portando, toda espécie humana reconhece que Deus é o criador do mundo.”

Ø A experiência mística revelaria ao homem a existência de Deus.

Ø Deus é o ser transcendente que fundamenta toda a verdade.

Ø Deus é realidade interna e ao mesmo tempo transcendente ao pensamento.

Ø Para santo Agostinho é mais fácil dizer quem Deus não é do que dizer o que ele é. Pois deus é inefável, ou seja, não se pode exprimi-lo por palavras.

Ø Para Santo Agostinho Deus é o criador de todas as formas e matéria.

Ø Deus é o ser por excelência, que é, foi e sempre será, esta completamente fora do tempo, é imutável e eterno.

Ø Sendo imutável Ele é a plenitude do ser, perfeição máxima, bem absoluto, o sumo bem.


Argumento Ontológico


O argumento ontológico é o único argumento pela existência de Deus a priori.esse argumento pretende estabelecer a existência de Deus a partir da mera análise do conceito de Deus, sem utilizar qualquer evidência com origem na experiência. A idéia é que própria noção de Deus implica que Deus existe. Santo Anselmo apresentou o argumento pela primeira vez no capítulo 2 do livro Proslogion. Aí, ele começou por definir Deus como “alguma coisa maior do que a qual nada se pode pensar” (aliquid quo nihil maius cogitari possit). É importante perceber bem o significado da palavra «maior» nesta definição. Anselmo não está a dizer que Deus é a coisa maior que existe. “Maior” não tem aqui o significado comum de “maior em tamanho”, mas de maior em valor ou maior em perfeição. Assim, ao dizer que Deus é “alguma coisa maior do que a qual nada se pode pensar”, santo Anselmo está a dizer que Deus é “alguma coisa com mais valor (ou mais perfeição) que se pode pensar”. Esta é uma definição muito geral de Deus, que especificamente nada diz sobre os seus atributos. Podemos, no entanto, assumir que é outra maneira de expressar a definição teísta de Deus, embora, para os fins de Santo Anselmo, isso seja irrelevante. Tudo aquilo de que ele precisa para o seu argumento é desta definição geral, que afirma que quaisquer que sejam os atributos de Deus, ele possui-os em grau absoluto. Desta forma, Santo Anselmo não se limita a dizer que Deus tem certos atributos no grau mais elevado que podemos conceber, mas que ele tem todas as qualidades ou perfeições que podemos conceber em grau absoluto. É este o verdadeiro significado da definição de Anselmo.

Estabelecida a definição de Deus, Santo Anselmo avança para a segunda fase do argumento. Algumas pessoas (como o insipiente do Salmo, 14, 1 da Bíblia), dizem que Deus não existe. As pessoas que fazem esta afirmação podem dessa forma estar a negar que Deus exista na realidade, mas não podem negar que ele exista na mente, uma vez que para negar a existência de qualquer coisa é necessário compreender aquilo de que se nega a existência, isto é, é preciso ter uma idéia disso na mente. Por exemplo, para negares que existam fantasmas tens de ter na tua mente uma idéia de fantasma. Sem uma idéia de fantasma ser-te-ia impossível negar a existência de fantasmas. Ora, isto também é verdade para as pessoas que negam que Deus exista. Para o poderem fazer têm de ter na sua mente uma ideia de Deus. Assim, mesmo o insipiente da Bíblia ou um ateu que digam “Não há Deus”, para que o possam dizer, têm de ter nas suas mentes uma idéia de Deus.

Santo Anselmo está agora em condições de passar para a última fase do seu argumento. Será que Deus tem apenas esta existência mental que tanto o crente como o ateu lhe reconhecem? Não, porque se Deus existisse apenas na mente, seria possível conceber um Deus maior, que existisse não apenas na mente, mas também na realidade, uma vez que o que quer que, para além de existir na mente, exista também na realidade é maior (no sentido explicado acima de ter mais valor ou maior perfeição) do que aquilo que exista apenas na mente. Mas isto é impossível, visto que, como Deus é, por definição, «aquilo maior do que o qual nada se pode pensar» nada pode ser maior que Deus. Portanto, Deus existe não apenas na mente, mas também na realidade.

Nesta última fase do argumento ontológico, Santo Anselmo usa uma forma de argumento que já conheces: a redução ao absurdo. A redução ao absurdo que Santo Anselmo faz é a seguinte:

Primeira premissa: Se “aquilo maior do que o qual nada se pode pensar” existisse apenas na mente, seguir-se-ia que “aquilo maior do que o qual nada se pode pensar” seria aquilo mesmo maior do que o qual alguma coisa se pode pensar.

Segunda premissa: Mas, isto, em virtude da própria definição de Deus, é impossível.

Conclusão: Portanto, é forçoso concluir que “aquilo maior do que o qual nada se pode pensar” existe não só na mente como também na realidade.

O argumento ontológico completo é, em esquema, o seguinte:

Primeira premissa (definição de Deus): Deus é “alguma coisa maior do que a qual nada se pode pensar”.

Segunda premissa: Mesmo aqueles que negam a existência de Deus têm Deus na sua mente.

Terceira premissa: Aquilo que existe na mente e na realidade é maior do que aquilo que existe apenas na mente.

Quarta premissa (primeira premissa da redução ao absurdo): Se “aquilo maior do que o qual nada se pode pensar” existir apenas na mente, segue-se que “aquilo maior do que o qual nada se pode pensar” é aquilo mesmo maior do que o qual alguma coisa se pode pensar.

Quinta premissa (segunda premissa da redução ao absurdo): É auto-contraditório que “aquilo maior do que o qual nada se pode pensar” seja aquilo maior do que o qual alguma coisa se pode pensar.

Conclusão (da redução ao absurdo): Portanto, “aquilo maior do que o qual nada se pode pensar” existe tanto na mente como na realidade.

Conclusão: Portanto, Deus existe necessariamente.



São Tomás de Aquino



· O ente e a essência:



Capitulo 5 : Deus como causa primeira de todos os demais seres .

“4.2”

Capitulo 6 : “ Existe algo , como Deus , cuja essência seu próprio ser ou sua existência .



· AS 5 VIAS QUE LEVAM A DEUS :



Ø Provas exclusivamente a posteriore.

Ø Através de cinco vias a existência de Deus é provada racionalmente.

Ø Cinco argumentos que provam a existência de Deus.

Ø Segundo São Tomás de Aquino a razão pode provar a existência de Deus através de cinco vias, todas de índole realista: considera-se algum aspecto da realidade dada pelos sentidos como efeito do qual se procura uma causa.

Ø A existência Deus somente é compreensível através de seus efeitos sensíveis , efeitos esses causados por sua existência.

Ø Parte do que já é contatado no mundo para chegar a Deus, parte de constatações empíricas, sensíveis.

Ø Todas as cinco vias parte de realidades concretas e verificáveis para chegar uma única mata , que é Deus .

Ø As cinco provas parte da realidade das coisas finitas pra chegar a Deus, realidade infinita.

Ø Segundo São Tomás, a partir das coisas criadas podemos comprovar a existência de Deus.

Ø Fundamentação aristotélica – o ponto de partida de cada via são elementos da cosmologia aristotélica.



I VIA: primeiro motor imóvel



Deus é o primeiro motor, movente imóvel, que move como causa final, objeto de desejo, que move tudo pra si.

1ª Prova – A do Motor Imóvel: diz que “se aquilo pelo qual é movido por sua vez se move, é preciso que também ele seja movido por outra coisa e esta por outra. Mas não é possível continuar ao infinito; do contrário, não haveria primeiro motor e nem mesmo os outros motores moveriam como, por exemplo, o bastão não move se não é movido pela mão. Portanto, é preciso chegar a um primeiro motor que não seja movido por nenhum outro, e por este todos entendem Deus”.



Ø Todo movimento possui uma causa que deve ser exterior ao próprio movimento.

Ø É impossível que uma coisa seja causa do movimento de si mesma.



II VIA : causa eficiente ou primeira

Deus como primeiro motor, como causa incausada. Deus é causa primeira de tudo por que é causa de si mesmo.

Nada é causa eficiente de si mesmo.



2ª Prova – A da Cauda Primeira: Neste argumento, Tomás nos mostra que tudo no mundo possui uma causa eficiente, uma razão de ser como de fato é. Nada é causa de si mesma, pois a causa sempre vem antes do efeito, sendo assim, algo que fosse sua própria causa deveria existir antes dela mesma, o que é um absurdo. Ele nos diz também que não podemos estender a cadeia de causas e efeitos até o infinito, tendo que chegar a uma causa primeira, que não teve causa e é a causa de todas as outras coisas. Essa causa é Deus.



III VIA: ser necessário



3ª Prova – Do Ser Necessário: Este argumento nos fala que os entes (coisas) são contingentes, ou seja, não são necessários. Contingente é aquilo que pode existir ou deixar de existir. Tudo que existe no mundo houve um tempo em que não existiu e haverá um tempo em que não existirá mais. Sendo assim, houve um tempo em que nada existiu. Mas se isso fosse verdade, ainda hoje nada existiria, pois “ex nihil nihilo fit” (do nada, nada provém). É preciso admitir que existe um ser que não é necessário e que através dele todos os outros seres vieram a existir. Este ser não pode não ter existido em determinado tempo e nunca deixará de existir. Este ser é Deus.



IV VIA:



4ª Prova – A dos Graus do Ser: Este argumento nos diz que em todas as coisas do mundo existe um grau de perfeição, de bondade, de ser... As coisas do mundo são mais perfeitas, boas, belas que outras. Sendo assim, deve haver algum ser que contém esses atributos ao infinito e seria a causa desta mesma perfeição, bondade, beleza... nos outros seres. Este ser é Deus.

Deus é a perfeição máxima.

Perfeição absoluta e fonte de toda perfeição.



V VIA:



5ª Prova – A da Inteligência Ordenadora: Alega que as coisas do mundo parecem ter sido projetadas. Existe uma ordem admirável no Universo que é facilmente verificada, ora toda ordem é fruto de uma inteligência ordenadora, não se chega à ordem pelo acaso e nem pelo caos, logo há um ser inteligente que dispôs o universo na forma ordenada. Com efeito aquilo que não tem conhecimento não tende a um fim, a não ser dirigido por algo que conhece e que é inteligente, como a flecha pelo arqueiro. Logo existe algo inteligente pelo qual todas as coisas naturais são ordenadas ao fim, e a isso nós chamamos Deus.


Prova cartesiana da Existência de Deus



Quando Descartes, através da duvida chega a uma verdade indubitável, que é o “eu penso” ele estabelece assim a existência de uma substancia incorpórea que pode existir mesmo eu duvidando da existência do sensível, ou seja, mesmo sem a existência do corpo, da matéria, existe essa substancia que pensa, que duvida, que sente, isso é a alma que Descartes apresenta nas meditações metafísicas.

Assim, partindo também da duvida e da própria certeza da sua existência, Descartes vai apresentar a prova da existência de Deus. Primeiro ele parte da existência da idéia de Deus em seu espírito, no entanto essa idéia existe assim como existe varias outras, apresentando assim as idéias adventícias, que provem do sensível, as fictícias que são inventadas pelo próprio homem, e as idéias inatas que são essas as quais já nascem com ele. Excluindo as outras por serem indubitáveis, como a existência do calor, luz, frio etc, Descartes mantém apenas as inatas, dentre as quais esta a idéia da perfeição, a própria idéia de Deus.

Para provar a existência de Deus na realidade, ele parte da existência da idéia em seu pensamento, sendo assim, parte do efeito para causa. Sendo ele, um ser empirista, contingente, mortal, tem em seu pensamento a idéia do perfeito, do infinito, através dessa idéia, ele chega a Deus, um ser perfeitíssimo, infinito e imaterial, pois, uma coisa é mais perfeito existindo no pensamento e na realidade, do que existindo só no pensamento. Logo, se Deus existe só na idéia, não seria um ser perfeito, e o eu pensante não pode ter essa idéia de si mesmo por ser imperfeito, sendo que duvido, e a duvida é uma imperfeição. Assim, Deus existe no pensamento e na realidade.

A existência de Deus em Descartes é a base para todas as certezas, para o próprio cogito, pois se Deus não existisse, tudo seria posto em duvida, até a própria existência como eu pensante.





Deus na Filosofia Contemporânea segundo o pensamento de Friedrich Nietzsche



O Problema de Deus recebeu a devida atenção da parte dos grandes filósofos da contemporaneidade. Aqui, destacamos de modo sintético, alguns elementos do pensamento de Nietzsche a respeito de Deus. Nietzsche tratou do tema, partindo da idéia da “morte de Deus”, tão necessária para eliminar valores e verdades absolutas que tem em Deus o seu fundamento.

Com uma crítica a religião, em especial ao cristianismo, bem como a toda ordem moral estabelecida, proclama a “morte de Deus” para o surgimento de um homem novo, livre de qualquer amarra da divindade e que, pela vontade de poder torna-se então capaz de construir a sua própria existência.

Segundo Juan Antônio Estrada, no seu livro Deus nas tradições filosóficas, Nietzsche anuncia a lenta morte de Deus e das certezas que se apoiavam nele (verdade, fundamento, sentido). Deus não existe, nem é necessário. Antecipa-se a crise sociocultural da fé em Deus e a secularização da sociedade e anuncia uma nova aurora a partir do que é possível criar um novo tipo de homem e de cultura.

O tema da morte de Deus aparece reiteradamente em sua obra, sobre tudo nos escritos dos anos 80. Trata-se de um processo lento, já que a morte de Deus, fundamento cristão dos valores, não elimina de um golpe os efeitos e conseqüências do cristianismo: a fé na verdade: que é também fé na razão; a busca de fundamentos absolutos, que não existem e são geradores do dogmatismo e do fanatismo religioso, político e filosófico.

A racionalização, a moralização, e a teologização dos valores são os males a combater. A religião tem duas vertentes: moralista e teológica. A moralização do mundo, potencializada por Kant, é o resultado da incapacidade de assumir a fragmentariedade e a negatividade da vida.

Nietzsche renega os postulados kantianos: expressam a auto-afirmação humana, que recorre a Deus porque não há suficiente vontade de poder. A crença compartilhada transforma-se me obstáculo para a vontade de poder do individuo. Daí a necessidade de um ideal totalizante em que integremos o ressentimento ante a vida.

A religião dramatiza a existência humana, surge como um protesto para escapar da caducidade humana e dar-lhe um significado infinito. É uma “má transcendência”, reverso da incapacidade para aceitar a finitude humana, que tende a negativizar a vida real, a simplificar a complexidade do real e as contradições da existência, e refugia-se em um outro mundo do além-túmulo.

A religião é um sistema que sacrifica o homem a partir de um projeto moral subjetivo que se legitima em Deus, que, como contrapartida exige uma fé e uma obediência radicais. Une-se a isto a teologização do mundo, que tem um sentido um porquê e um para quê. Daí a ilusão da liberdade, da responsabilidade e do pecado. O livre arbítrio exige um culpado e o instinto de vingança encobre-se como juízo e castigo divino. O homem perde sua inocência, sabe-se incriminado e pecador ante Deus, e vive ante o medo constante da divindade, que ameaça com castigo eterno.

Na religião o prazer se identifica com pecado e o gozo gera a culpa, com o que o desejo negativiza e culpa o homem que se contrapõe a Deus puro e santo. Impugna também a compaixão como uma forma de fraqueza: o amor ao próximo por Deus (porque ao homem não se pode amar por si mesmo) O amor a vida leva a recusar todo o supranaturalismo, a viver em função da utopia do futuro à custa do presente, e a apelação ao divino, que encobre a incapacidade de nos auto-afirmarmos a partir da fragmentariedade.

Nietzsche não entra diretamente a avaliar as provas da existência de Deus, mas expõe as raízes psicológicas e experimentais de que surge a necessidade de Deus.

A partir do que foi exposto é compreensível a critica nitzschiana a civilização ascética ocidental. Por isso, a crítica religiosa é insuficiente, deve-se estendê-la ao próprio homem, à historia e aos valores, a toda tradição humanista de que se tem alimentado o Ocidente.

Para Giorgio Penzo, no seu livro Deus na filosofia do século XX, Nietzsche considera que a raiz metafísica do conhecer como necessidade de segurança leva o homem a ver Deus como último horizonte de segurança e de verdade absoluta, donde a dimensão metafísica da fé como busca de uma segurança ultima. Para o homem metafísico, a morte de Deus e vivida de um modo dramático, justamente porque marca o fim de um longo desejo que é necessário ao homem para viver com uma consciência de segurança. Nietzsche faz sua essa angústia “desesperada” do homem metafísico diante do “avanço do niilismo”. Supera, porém, tal angustia, quando observa que a morte de Deus é um acontecimento cultural e existencial necessário para purificar a face de Deus e, por conseguinte a fé em Deus.

Nietzsche não mata Deus, mas limita-se a constatar a ausência do divino na cultura do seu tempo, acusando, pelo contrario, por essa ausência e morte, o pensamento metafísico.


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