OLÁ FILÓSOFOS E FILÓSOFAS

Quando iniciamos um curso de Filosofia ou aulas de cunho filosófico, ouvimos a primeira pergunta "filosófica": "Para que serve a Filosofia?"
É a essa e várias outras perguntas que nesse nosso Blog perseguiremos. Não vamos dar respostas prontas, mas nos ajudaremos a encontrarmos nossas respostas!

Boa leitura, boa pesquisa!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A OBRA DE ARTE EM HEIDEGGER E SHOPENHAUER


Fazendo um estudo dos textos dos dois autores, evidencia-se que o texto de Heidegger busca apresentar o caráter-de-obra-da-obra, colocando primeiro a coisidade-da-coisa e o ser apetrecho-do-apetrecho, enquanto o texto de Schopenhauer realça a questão do indivíduo como conhecedor de coisas isoladas através da vontade objetiva, e a passagem da vontade objetiva para o puro sujeito do conhecer destituído de vontade.
Levando em conta primeiramente o texto de Heidegger, tratando-se do ser-apetrecho-do-apetrecho, para ele o Ser do apetrecho, ou seja a sua essência, reside na sua serventia e instrumentalidade. O apetrecho só existe por causa dos homens, que através de sua utilização lhe dá existência. O homem ver algo e descobre que serve para sua utilização e começa a usá-lo, sendo a partir daí um apetrecho. Quando vemos o apetrecho e interagimos com ele nos servido dele, vemos esse apetrecho apenas pelo que ele nos serve, mas quando vemos de outro modo, como aquele que ver ou que pinta o quadro, sem participar do momento, apenas lhe damos valor estético. No entanto a serventia do apetrecho reside na sua solidez, ou seja a união da forma e matéria, sendo a prestabilidade apenas conseqüência dessa existência sólida do objeto.
Para ele, quando vemos o apetrecho inserido em um quadro, ou seja, quando o apetrecho perde a sua prestabilidade, sendo inserido para a contemplação e visualização fora do seu contexto como o exemplo que ele apresenta do quadro de Van Gog, a arte vai mostrar o que esse apetrecho é na verdade, a sua existência verdadeira, pois para aquele que usa o apetrecho é apenas algo que facilita seu trabalho e mais nada. A obra de arte distingue-se daquilo que chamamos simplesmente coisa, já que a coisa é aquilo que não tem nenhuma prestabilidade para o homem., sem nenhuma especificação determinada. Ela é portadora de um caráter distinto que merece uma investigação mais aprofundada. E é o modo como a arte é vivenciada pelo homem, o modo como algo é visto ou se apresenta ao homem, que deve fornecer a chave para a essência da arte. Vemos de antemão o caráter de coisa no encontro com a obra de arte que é “criada”, e é produzida. Quando alguma coisa é produzida, trazida para a existência, supõe-se que essa coisa antes teve uma finalidade, ou seja uma prestabilidade, para ser produzido. Já na obra de arte, percebemos, logo de início, que essa finalidade de ser útil, não aparece. A arte é gratuita em seu aparecer. Na obra de arte, não é a utilidade que provoca seu aparecimento, mas é a realização do ser da coisa que antes tinha a sua finalidade. No aparecimento da verdade da obra de arte é que está a sua essência. Assim podemos dizer que para ele o “ser-obra-da-obra”, repousa na sua ascensão e manifestação da verdade do ente, dependendo do conceito que o indivíduo dá ao ente, ou ainda dependendo da visão de cada indivíduo.
Já em Schopenhauer o ser humano é dotado de uma vontade objetiva que o leva a dar conceito as coisas. Pois todo indivíduo tem uma relação causal com o objeto, ou seja, há uma temporalização e subjetivação do objeto, dependendo do interesse desse indivíduo. O mundo se volta para o homem, como vontade e representação, pois o homem conhece as coisas a partir de quando existe uma relação de tempo, espaço, circunstâncias, causa e efeito, ou seja, o indivíduo conhece as coisas isoladamente, sabendo o que é representado e o que existe realmente.
A partir de quando o homem fixa-se em um objeto, contemplando-o e separando da conexão com os outros, aparecerá aí uma intuição de valor estético. Mas essa contemplação só se dá distante da vontade, quando o indivíduo se torna puro sujeito do conhecer destituído de Vontade, conhecendo assim as idéias. Chegamos aqui ao conhecimento das Idéias pela contemplação. Para Schopenhauer a arte é a contemplação das coisas independente do princípio de razão, colocando as coisas separadas de seu plano de fundo, como uma seleção. A partir daí é considerada apenas a idéia da coisa representada na experiência estética, e não mais a temporalidade, espacialidade, ou causalidade, quando nos tornamos totalmente voltados para o objeto. Na contemplação da arte, o homem passa do estado de ator para o de espectador, esse não age mais no mundo, apenas contempla-o, é uma forma de consolo perante o sofrimento e a essência do mundo, a Vontade.
Assim podemos concluir que tanto para um como para o outro, para o objeto se tornar arte, deve ser afastado do mundo real, ou seja deve ser tirado da sua prestabilidade, não sendo mais objeto da vontade humana. Ambos concordam que a subjetividade humana determina a conceituação do objeto como arte, sendo um por meio da coisidade-da-coisa e o outro por meio da objetividade da vontade. Quando buscamos conhecer as coisas e objetos pela sua prestabilidade, fazemos uma relação desse objeto, ou seja, o apetrecho em um e a coisa isolada em outro, com as outras coisas que já conhecemos, para assim conhecer o seu valor instrumental. Já na arte, não estamos preocupados com o que os outros vão pensar, ou ainda, não nos preocupamos se vão concordar conosco ou não pois a interpretação e subjetividade da arte depende exclusivamente da relação daquele que contempla com o contemplado, e o espaço em que esse objeto se situa. Quando vemos uma imagem em uma igreja, ela tem como objetivo levar aquele que contempla a uma atitude religiosa, no entanto se essa mesma imagem estiver situada em um museu de arte sacra, o único objetivo de quem a contempla é conceber e visualizar a sua beleza estética e simbólica.
Jucelino Carvalho

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